Meio Ambiente

Fotógrafo registra há 50 anos a natureza que o Brasil está destruindo

Araquém Alcântara considera que enfraquecimento da fiscalização ambiental no país é ‘crime de lesa humanidade’. Ele planeja três livros e uma mostra simultânea à COP26. Fotógrafo registra há 50 anos a natureza que o Brasil está destruindo
Araquém Alcântara
“A fotografia tem um papel importante porque ela é uma crônica. Quando feita com arte e com informação, é a crônica da beleza e do extermínio. Eu venho acompanhando o processo de desertificação desse país. É impressionante.”
Em 2021, o fotógrafo Araquém Alcântara completou 70 anos, 50 deles dedicados a preservar em imagens a natureza que o Brasil está destruindo.
Com o que considera um olhar amadurecido para o exercício de paciência e contemplação que é a fotografia de natureza, Araquém volta à Amazônia neste fim de agosto para registrar o que é esperada para a ser a pior temporada de queimadas dos últimos anos, em meio à forte seca que assola o Brasil e ao enfraquecimento da fiscalização ambiental promovido pela gestão Jair Bolsonaro (sem partido).
Ao mesmo tempo, planeja para novembro o lançamento do livro comemorativo dos seus 50 anos de profissão; para o primeiro semestre de 2022, um livro sobre a Amazônia voltado ao público europeu; e ainda sem data, um terceiro livro, sobre a fauna brasileira para escolas.
AMAZÔNIA: Esquema de contrabando de ouro despachava o metal ilegalmente para o exterior
PANTANAL: 57% do Pantanal foi queimado ao menos uma vez entre 1985 e 2020
Mico-de-cheiro com filhote no Parque Nacional da Serra do Divisor. Acre, 2006
Araquém Alcântara
Também prepara uma mostra do seu trabalho para influenciar os líderes mundiais na tomada de decisões na COP26, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2021, prevista para acontecer de 31 de outubro a 12 de novembro em Glasgow, na Escócia.
“Meu trabalho é resistência da memória. Mais de 50% do Cerrado já foi; restam só migalhas, nem 1% das matas de araucárias; e a Amazônia começa a entrar no seu ponto de declínio, no seu ponto de savanização e daqui a pouco não produz mais chuva”, diz Araquém à BBC News Brasil.
“O [historiador americano] Warren Dean em determinado momento se pergunta: ‘Não deveria esse holocausto produzido pelo homem ser relatado de geração para geração? Não deveria o manual de história aprovado pelo Ministério da Educação começar assim: Crianças, vocês vivem em um deserto, vamos lhes contar agora como foi que vocês foram deserdadas'”, afirma o fotógrafo, citando o autor de A Ferro e Fogo, clássico da história ambiental sobre a devastação da Mata Atlântica brasileira.
“É preciso documentar, é preciso mostrar isso, é preciso gritar por mudança já. Ainda bem que, para isso, eu tenho o texto e a foto.”
‘Comecei cantando minha aldeia’
Nascido em Florianópolis, em 1951, Araquém estudou em colégio interno, num seminário carmelita de Itu, no interior de São Paulo. A princípio um amante da escrita, se apaixonou pela imagem numa sessão de cinema promovida em Santos pelo agitador cultural francês Maurice Lègeard.
“Eu era meio ‘hippão’ — ou totalmente ‘hippão’ —, cabeludão à la Jimi Hendrix. Era um janeiro de 1970, eu tinha 17 anos, nem sabia direito que filme era, e de repente me aconteceu”, lembra o fotógrafo.
“O filme se chamava A Ilha Nua, de Kaneto Shindô, e eu vendo aquilo ali fui ficando transido no escuro diante de tanta beleza. Quando acabou o filme, teria uma festa, eu falei à namorada que não iria. ‘Eu vou para a praia, preciso pensar’. Na praia do Gonzaga em Santos, tirei o tênis, fui andando pela beirada da água e me veio um insight. No dia seguinte, virei fotógrafo.”
Ele conta que começou a fotografar com uma câmera emprestada. “Fui fotografar as putas do cais e os urubus de Santos, tema do meu primeiro ensaio.”
Mas foi o apocalipse da Cubatão dos anos 1980 — cidade que ficou conhecida como “Vale da Morte”, devido à elevada concentração de poluentes industriais, impossibilitados de se dispersar pelo paredão da Serra do Mar — que despertou Araquém para a questão ambiental.
“Comecei a cantar minha aldeia. E a minha aldeia, a baixada santista, tinha Cubatão, o rico ‘Vale da Morte’. Eu comecei ali a entender o que significava sustentabilidade — ou insustentabilidade. Crianças sem cérebro, a destruição em função da ganância”, relata, lembrando das mais de 30 crianças nascidas mortas devido a anencefalia causada pela exposição das mães à poluição excessiva.
“Ao tomar uma chuva ácida nas costas, ali eu comecei a ser um precursor da fotografia de natureza e comecei a minha andança, minha Odisseia, que dura até hoje.”
Desde então, Araquém passou por veículos diversos da imprensa nacional (os jornais “Cidade de Santos”, “O Estado de S. Paulo”, “Jornal da Tarde”, “O Globo”, “Tribuna de Santos”, a revista “IstoÉ”), fundou sua própria editora — a Terra Brasil, batizada a partir do livro de mesmo nome, lançado em 1998 e que desde então já vendeu mais de 130 mil cópias, num país onde a tiragem média das obras é de 2,5 mil — publicou 58 livros e ganhou mais de 100 prêmios em todo o mundo.
A velhice e as redes sociais
Araquém vive agora a experiência de envelhecer como um fotógrafo ainda na ativa.
“Agora, o olhar mais amadurecido já hospeda melhor o silêncio, a percepção, eu já simplifico as coisas. A fotografia é um grande exercício de paciência e de contemplação, sobretudo a de natureza. O verdadeiro fotógrafo de natureza perde 99% de suas fotos, mas aquele 1% corrige tudo sob o céu”, afirma, de forma grandiloquente.
Bastante ativo nas redes sociais, o fotógrafo teve no início de agosto uma de suas imagens apagadas pelo Instagram. A fotografia mostrava uma jovem indígena do povo Zo’é dando de mamar ao seu filho, ao lado de uma outra jovem indígena com os seios à mostra.
A rede social alegou que a imagem ia “contra as diretrizes da comunidade sobre nudez”.
“Acho muito importante para o meu trabalho e o de outros fotógrafos e artistas a divulgação nas redes sociais. Mas não dá para entender a falta de critério, a burrice dos algoritmos”, diz.
“O Instagram precisa mudar seus filtros e os artistas precisam se movimentar nesse sentido. O meu grito de repúdio teve esse objetivo”, completa.
Um andarilho na pandemia
Autodefinido como um “fotógrafo andarilho”, Araquém decidiu abandonar o isolamento imposto pela pandemia quando, em meados de 2020, o Pantanal começou a queimar de forma sem precedentes.
“Quando o Pantanal começou a ser incinerado eu pensei: ‘Eu não posso ficar aqui’. E aí me expus”, lembra o artista. “Nessa ida para o Pantanal, no período em que fiquei lá, eu vi a face do horror. Vi que é possível tudo virar cinza e deserto.”
Esse ano, Araquém volta a campo para uma nova temporada na Amazônia, que deve se estender do fim de agosto a outubro, auge do período de queimadas na região.
“Estou indo para a Amazônia novamente porque as perspectivas são catastróficas”, afirma.
“A seca está muito severa e o enfraquecimento todo da fiscalização sugerem mais um ano de recordes”, alerta, lembrando que o maior número de focos de queimadas dos últimos 14 anos foi registrado em junho, mês que ainda não é de temporada de fogo.
“É fundamental uma moratória. É fundamental parar o desmatamento já e a fotografia tem um papel importante nisso.”
Rodovia Cuiabá-Santarém. 2017
Araquém Alcântara
As fotografias da viagem de agora devem ser aproveitadas no livro sobre a Amazônia voltado para o mercado europeu, que deverá ser dividido em três partes: A Terra, O Homem e O Desequilíbrio — uma referência aos Sertões de Euclides da Cunha, cuja obra seminal sobre o conflito de Canudos é dividida entre A Terra, O Homem e A Luta.
Primeiro fotógrafo a documentar todos os parques nacionais do Brasil, Araquém avalia que a mudança da política ambiental nacional no período recente é “criminosa”.
“É uma coisa catastrófica, um crime de lesa humanidade”, afirma. “A questão fundiária na Amazônia precisa ser resolvida e é preciso manter a floresta em pé imediatamente. Os governos ignoram a ganância das quadrilhas de grileiros, em nome de um falso progresso que só enriquece uma minoria.”
“Eu sou uma testemunha ocular dessa barbárie, porque fotografo a natureza desse país há meio século. E me parece que o [antropólogo, historiador, sociólogo e escritor] Darcy Ribeiro tinha razão quando ele disse há vinte anos atrás: ‘Só o engajamento total da opinião pública mundial pode salvar a Amazônia’. Então meu grito é um grito por atitude, minha fotografia está a serviço da vida.”
G1 no Youtube

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