Categoria: Meio Ambiente

  • Pantanal deve levar pelo menos 5 anos sem queimadas para recuperar ecossistema, diz pesquisador

    Pantanal deve levar pelo menos 5 anos sem queimadas para recuperar ecossistema, diz pesquisador

    Estudiosos estimam que o Pantanal mato-grossense perdeu 20% da biodiversidade. São mais de 2,3 milhões de hectares destruídos pelo fogo. Pesquisadores percorrem áreas devastadas pelas queimadas no Pantanal
    Thiago Semedo/Arquivo pessoal
    As queimadas no Pantanal mato-grossense já duram mais de 100 dias e as consequências para a fauna devem percorrer pelo menos pelos próximos cinco anos, segundo pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas do Pantanal (INPP) e da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
    Estudiosos estimam que o Pantanal mato-grossense perdeu 20% da biodiversidade.
    O pesquisador Filipe Viegas de Arruda contou ao G1 que realiza um trabalho dos impactos do fogo no Pantanal desde 2015.
    Cobra morreu queimada no Pantanal mato-grossense
    Thiago Semedo/Arquivo pessoal
    Segundo ele, as consequências do fogo em pequenas áreas para alguns insetos, como as formigas, e pequenos mamíferos levam de quatro a cinco anos para desaparecerem. No entanto, com as queimadas sem controle, esse tempo pode se estender.
    “Antes, os animais tinham espaço para se deslocarem para longe do fogo. Mas, desde o ano passado, os incêndios têm devastado grandes áreas e é justamente isso que vem nos preocupando. Muitos não estão conseguindo se deslocar para outro local e acabam morrendo queimados”, explicou.
    Veado morreu tentando fugir o fogo no Pantanal
    Thiago Semedo/Arquivo pessoal
    Filipe ressaltou que, caso os incêndios permaneçam pelos próximos anos, sem pausa para que os animais possam retomar aos seus habitats, a tendência é que algumas espécies de formiga e roedores desapareçam. Segundo o pesquisado, as chamas impactaram grandes mamíferos e aves ameaçadas de extinção.
    “É necessário cerca de 5 anos sem queimadas dessa proporção para conseguirem retornar, mas esse é o grande problema. Está queimando muito, não dá tempo de voltarem. Se continuar assim, a fauna vai mudar. Várias espécies de animais tendem a aparecer. Tendem a ser extintas”, disse.
    Onça-pintada que teve as patas queimadas foi resgatada no Pantanal de Mato Grosso no dia 11 de setembro de 2020
    Ailton Lara
    Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), os incêndios florestais em Mato Grosso, em 2020, são os maiores já registrados desde que o monitoramento começou a ser feito, em 1998.
    Neste ano, foram identificados 15.756 focos de calor no Pantanal. Antes disso, o maior número tinha sido registrado em 2005, 12.536 focos.
    Incêndio se espalha rapidamente devido aos ventos fortes no Pantanal
    Jeferson Prado
    Dados do Prevfogo, o Centro Nacional de Prevenção e Combate aos incêndios florestais do Ibama, mostram que a área queimada no Pantanal, em 2020, já passou de 2,3 milhões de hectares, sendo 1,2 milhão em Mato Grosso e mais de 1 milhão em Mato Grosso do Sul.
    Essa área de mais de 2 milhões de hectares representa quase 10 vezes o tamanho das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro juntas.
    Cenário devastador no Pantanal impressiona pesquisadores
    Thiago Semedo/Arquivo pessoal
    Para o pesquisador do INPP e do Museu Emílio Goeldi, Thiago Semedo, que, junto com uma equipe de estudiosos, já percorreu mais de 60 quilômetros de área devastada no Pantanal para estudo, a sensação é de angústia.
    “A sensação é terrível. É muito triste caminhar por quilômetros e ver uma total devastação. Inúmeros animais extremamente importantes para o meio ambiente e interação ecológicas sendo dizimados”, relatou.
    Thiago e uma equipe de técnicos e pesquisadores estão fazendo um levantamento da quantidade de animais mortos no Pantanal. Os resultados devem ficar prontos no fim deste ano.
    “Com esses números, serão subsidiadas políticas públicas com embasamento científico para a região”, explicou.
    Fazem parte da pesquisa as seguintes instituições: Bichos do Pantanal, ONG Panthera, Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Instituto Nacional de Pesquisa do Pantanal (INPP), Museu Emílio Goeldi (MPEG), Instituto Homem Pantaneiro, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) do Pantanal.
    A previsão de chuva para esta semana é uma esperança de melhora nos focos de incêndio no Pantanal.
    “Enquanto a chuva não chegar, é mais um problema que esses animais vão enfrentar, que é a falta de água e comida. As especieis consumaram a conviver com o fogo, mas não esse tipo de queimada, as proporções eram menores. Temos que pensar, além de estudar, como punir quem está fazendo essas queimadas criminosos”, ressaltou Filipe.
    Incêndios que destruíram 117 mil hectares do Pantanal começaram em 5 fazendas de MT, diz ICV
    ICV
    Ações e responsabilização
    Além de antecipar o período proibitivo das queimadas, o governo do estado tem lançado campanhas de combate aos incêndios no Pantanal.
    No início de agosto, foi lançada a operação “Pantanal Verde”. Militares de Mato Grosso do Sul desembarcaram em Mato Grosso para ajudar os bombeiros a combater o incêndio de grandes proporções no Pantanal, na região de Poconé.
    No entanto, para as instituições ligadas ao meio ambiente, é necessário que o governo responsabilize os infratores que têm causado queimadas.
    A coordenadora do Programa de Incentivos Econômicos para Conservação, Paula Bernasconi, explicou, em entrevista coletiva na manhã desta terça-feira, que a maioria dos focos se concentram em área cadastradas no governo, o que facilita o monitoramento e, consequentemente, a responsabilização.
    Pesquisadores participam de força-tarefa para contabilizarem animais mortos pelas queimadas no Pantanal
    Semagro/Divulgação
    Situação de emergência
    O secretário de Segurança Pública do Mato Grosso, Alexandre Bustamante, afirmou, nesta terça, que o reforço das Forças Armadas no combate ao fogo no Pantanal é necessário, pois as equipes de bombeiros que atuam na região até o momento, já “trabalham no limite”.
    O governo decretou situação de emergência no estado por causa dos incêndios florestais no dia 14 de setembro. O decreto vale por 90 dias, podendo ser prorrogado.
    Com o documento, as autoridades poderão adotar as medidas necessárias à prevenção e combate das queimadas, podendo comprar materiais sem precisar de licitação e suspender os prazos para retorno de gastos com pessoal e dívida.
    VÍDEOS: Incêndios no Pantanal
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  • Fotógrafo Araquém Alcântara registra fuga de animais e destruição das queimadas no Pantanal

    Fotógrafo Araquém Alcântara registra fuga de animais e destruição das queimadas no Pantanal

    ‘Eu vi a face do horror’, definiu o fotógrafo, que retrata a natureza brasileira há mais de 50 anos. Fotógrafo Araquém Alcântara retrata a destruição no Pantanal: ‘Eu vi a face do horror’
    O fotógrafo Araquém Alcântara, que retrata há 50 anos a natureza brasileira – foi o primeiro fotógrafo a documentar todos os parques nacionais do Brasil –, passou as duas últimas semanas no Pantanal matogrossense para retratar a destruição do bioma, que enfrenta o pior período de queimadas na história.
    “Nesses 15 dias de Pantanal de Mato Grosso – o epicentro do fogo – eu vi a face do horror. E é triste, mas essa mortandade de animais, essa fuligem no ar, essa terra arrasada escancaram mesmo é a nossa brutalidade, a nossa ignorância. Como é que a gente pode permitir isso?”, questionou o fotógrafo em entrevista à GloboNews (veja vídeo acima).
    Neste ensaio, Araquém escolheu focar na resistência dos animais que permaneceram no cenário de terra arrasada, lutando para sobreviver.
    Veja as fotos:
    “A majestade do Pantanal sobrevive ao fogo e escancara a nossa brutalidade e ignorância”, afirma Araquém. Imagem foi registrada na quinta (24) às margens do Rio Piqueri no Parque Estadual do Encontro das Águas, Mato Grosso.
    Araquém Alcântara/Divulgação
    Fotógrafo registrou destruição das queimadas no Pantanal
    Araquém Alcântara/Divulgação
    Fotógrafo Araquém Alcântara registra fuga de animais durante as queimadas no Pantanal.
    Araquém Alcântara/Divulgação
    Fotógrafo Araquém Alcântara registra fuga de animais durante as queimadas no Pantanal.
    Araquém Alcântara/Divulgação
    Fotógrafo Araquém Alcântara registra fuga de animais e a destruição das queimadas no Pantanal.
    Araquém Alcântara/Divulgação
    Fotógrafo Araquém Alcântara registra fuga de animais e a destruição das queimadas no Pantanal.
    Araquém Alcântara/Divulgação
    “Os mutuns e outros bichos tentam encontrar comida caminhando pelo solo calcinado”, conta o fotógrafo Araquém Alcântara.
    Araquém Alcântara/Divulgação
    Fotógrafo Araquém Alcântara registra fuga de animais e a destruição das queimadas no Pantanal.
    Araquém Alcântara/Divulgação
    Fotógrafo Araquém Alcântara registra fuga de animais e a destruição das queimadas no Pantanal.
    Araquém Alcântara/Divulgação
    Fotógrafo Araquém Alcântara registra fuga de animais e a destruição das queimadas no Pantanal.
    Araquém Alcântara/Divulgação
    “Mais um dia de batalha contra o fogo. Heróis anônimos: bombeiros do Mato Grosso e do Matogrosso do Sul, brigadistas, Icmbio, veterinários, voluntários, pantaneiros. Se não fosse o patriotismo deles, a catástrofe seria muito maior”, escreveu Araquém.
    Araquém Alcântara/Divulgação
    Fotógrafo Araquém Alcântara registra fuga de animais e a destruição das queimadas no Pantanal.
    Araquém Alcântara/Divulgação
    Fotógrafo Araquém Alcântara registra fuga de animais e a destruição das queimadas no Pantanal.
    Araquém Alcântara/Divulgação
    Fotógrafo Araquém Alcântara registra fuga de animais e a destruição das queimadas no Pantanal.
    Araquém Alcântara/Divulgação
    Fotógrafo Araquém Alcântara registra fuga de animais durante as queimadas no Pantanal.
    Araquém Alcântara/Divulgação
    Fotógrafo Araquém Alcântara registra fuga de animais durante as queimadas no Pantanal.
    Araquém Alcântara/Divulgação
    Fotógrafo Araquém Alcântara registra fuga de animais e a destruição das queimadas no Pantanal.
    Araquém Alcântara/Divulgação
    Fotógrafo Araquém Alcântara registra fuga de animais durante as queimadas no Pantanal.
    Araquém Alcântara/Divulgação
    Fotógrafo Araquém Alcântara registra fuga de animais durante as queimadas no Pantanal.
    Araquém Alcântara/Divulgação
    Araquém Alcântara durante trabalho de registro das queimadas no Pantanal
    Arquivo Pessoal
    Fotógrafo Araquém Alcântara registra fuga de animais durante as queimadas no Pantanal.
    Araquém Alcântara/Divulgação
    Fotógrafo Araquém Alcântara registra fuga de animais e a destruição das queimadas no Pantanal.
    Araquém Alcântara/Divulgação
    “As onças não morreram. E agora que o fogo passou pelo parque estadual do encontro das águas elas estão aparecendo. O Pantanal voltará a ser uma das maravilhas da Terra”, diz o fotógrafo Araquém Alcântara.
    Araquém Alcântara/Divulgação
    Gabeira: ‘Nós perdemos muito, e a fala e as fotos de Araquém Alcântara dizem tudo’
    As imagens da luta dos animais pela vida no Pantanal em chamas
    VÍDEOS: queimadas no Pantanal

  • Documentário conta história de indígena feminina do Acre que formou a própria aldeia

    Documentário conta história de indígena feminina do Acre que formou a própria aldeia

    Documentário já foi exibido em vários festivais de cinema do Brasil, na França e Bélgica. Documentário acreano conta história de liderança indígena feminina
    Liderança, confiança e protagonismo feminino. Um documentário acreano conta a história de uma mulher indígena que superou os limites impostos e formou a própria aldeia.
    “Bimi Shu Ykaya” foi filmado em 2018 e já percorreu diversos países, como a França e Bélgica. O documentário também já ganhou seis prêmios no Brasil.
    A obra conta a história de Bimi, uma indígena Huni Kuin que teve dificuldades por ser mulher e ter uma personalidade forte. Isso que fez com que ela saísse da aldeia de origem e formasse a própria aldeia.
    “A Bimi tem uma história incrível, é uma liderança indígena que rompeu com as tradições indígenas. É uma cacica, gosta de ser chamada assim, fundou a própria e tem um protagonismo feminino dentro dos povos indígenas, é uma pajé também”, contou o produtor da obra, Sérgio de Carvalho.
    Documentário conta a história de líder indígena feminina que luta pelos direitos das mulheres
    Reprodução/Rede Amazônica Acre
    O documentário mostra que Bimi assumiu o papel de pajé de cura, que detém os saberes do povo da aldeia e dá voz e visibilidade às mulheres indígenas. Segundo Carvalho, a história recebeu muitos elogios dos críticos.
    “Quando Isaka, que é neto da Bimi, trouxe o projeto a gente, imediatamente, foi atraído porque é muito bonito e vemos também uma jovem liderança e cineasta indígena com vontade de fazer cinema. E o filme também não é só sobre a Bimi, mas também o sonho de fazer cinema”, destacou o produtor.
    Carvalho acrescentou que o neto da indígena também atua, dirige e comenta o processo da produção da obra. Além de Isaka, o documentário é dirigido também por Sim e Yube Huni Kuin, todos netos de Bimi.
    “É uma linda homenagem de um neto para uma avó, que é um tema universal também e por isso Bimi tem sido tão bem aceito por onde passa”, revelou.
    As gravações do material foram feitas na Terra Indígena Praia do Carapaña, na zona rural de Tarauacá, no interior. Carvalho explicou que a obra foi ganhadora do Fórum Doc, que é festival de documentários, foi exibido no Festival Olhar de Cinema, Festival Tiradentes, Amostra de Filme Livres e outros.
    “Acho que foi a junção de muito trabalho que a gente conseguiu chegar nesse resultado. O filme se consagrou em festivais do Brasil e do mundo todo, circulou bastante e foram muitas mãos que ajudam a chegar nesse resultado”, concluiu.
    VÍDEOS Bom Dia Acre:

  • Pesquisadora de Oxford alerta para risco de normalização de incêndios na Amazônia

    Pesquisadora de Oxford alerta para risco de normalização de incêndios na Amazônia

    Bióloga Erika Berenguer afirma que mesmo com aumento de registros de queimadas e desmatamento em alta, destruição da Floresta Amazônica não recebe a devida atenção. Fogo e desmatamento na Amazônia causam preocupação em todo o mundo.
    Reuters via BBC
    Um grande risco para a Amazônia nos próximos anos é a normalização dos incêndios no bioma, alerta a bióloga brasileira Erika Berenguer, pesquisadora das universidades de Oxford e Lancaster, ambas no Reino Unido.
    A especialista, que estuda os impactos do fogo na Amazônia, ressalta que neste momento as atenções sobre as queimadas estão voltadas para o Pantanal, que enfrentou a seca mais intensa das últimas décadas e o pior período de incêndios em sua história recente.
    Apesar de reforçar a importância de se falar sobre a situação do Pantanal e de cobrar ações rápidas das autoridades para a região, Berenguer pontua que não se deve esquecer dos problemas vividos na Amazônia.
    “É muito perigoso normalizar a situação na Amazônia e não se chocar mais, tratar simplesmente como coisa de rotina”, diz a pesquisadora.
    Bióloga estuda os impactos do fogo na Floresta Amazônica.
    MARIZILDA CRUPPE/REDE AMAZÔNIA SUSTENTÁVE via BBC
    Os registros de focos de calor (que costumam representar incêndios) na Amazônia em 2020 superam os do mesmo período nos dois últimos anos, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
    De janeiro a esta quinta-feira (24/9), foram registrados 72,2 mil focos de calor, conforme o Inpe. Somente nas duas primeiras semanas de setembro, os números de incêndios na Amazônia cresceram 86,1% em comparação ao ano passado. Enquanto em 2019 foram registrados 11 mil focos de calor, neste ano foram 20,4 mil.
    Estudos apontam que o fogo que atinge o bioma está diretamente relacionado ao desmatamento.
    Entre 2000 e 2018, a Amazônia perdeu 269,8 mil km² de florestas — área superior, por exemplo, à extensão do Reino Unido. Segundo esse dado, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a cobertura florestal da área total do bioma caiu de 81,9% para 75,7%, em 18 anos. Pouco mais da metade das alterações da terra foi para converter áreas em pastagem.
    No governo Jair Bolsonaro, o desmatamento na região atingiu níveis preocupantes, segundo levantamentos. Em julho do ano passado, 2.255 km² do bioma foram desmatados, recorde desde 2015. No mesmo mês, em 2020, foram 1.658 km² da floresta, segundo o sistema Deter, do Inpe.
    “Antes do governo Bolsonaro, a gente só teve um mês com mais de mil km² desmatados desde 2015, em agosto de 2016. Depois do começo da gestão dele, esse número se tornou comum”, diz a pesquisadora.
    O desmatamento na Amazônia já passou de mil km² em seis meses, desde o início do governo Bolsonaro. Os dados são do sistema Deter, que há cinco anos analisa o desmatamento na floresta tropical mensalmente.
    “Os levantamentos apontam que há uma grande proporção da área desmatada no ano passado que foi queimada somente neste ano. Esse é um dos possíveis motivos para justificar o aumento do fogo em 2020, em comparação ao ano passado”, diz Berenguer.
    ‘O desmatamento está virando normal’
    Em 2019, houve um grande movimento em defesa da Amazônia. “A sociedade civil organizada fez uma mobilização, principalmente após o mês de julho, quando foram desmatados mais de 2 mil km² a floresta”, comenta a especialista.
    Porém, Berenguer afirma que neste ano não notou a mesma reação diante dos incêndios e do desmatamento intenso no bioma. “O problema é que parece que muitos passaram a aceitar e normalizar as queimadas e o desmatamento na Amazônia. Tenho a impressão de que as pessoas sabem que as coisas não estão muito bem (no bioma), mas não entendem a real dimensão do quanto as coisas estão ruins”, declara.
    “A gente está vendo picos de desmatamento que eram raríssimos alcançar. Parece que isso está virando normal”, diz a especialista.
    Berenguer avalia que há pouca repercussão sobre o fato nas redes sociais e as autoridades optaram por focar no Pantanal. “É como se tivessem se acostumado com a barbárie. Essa normalização diminui a pressão em órgãos que deveriam estar fiscalizando. Uma sociedade anestesiada diante desse cenário acaba não fazendo pressão para que essa tendência do desmatamento e queimadas mude”, declara.
    “É inaceitável termos mais de mil focos de calor por dia e mais de mil quilômetros quadrados desmatados com frequência. É inaceitável”, declara.
    Área de desmatamento na Amazônia
    JN
    A cientista ressalta que, além do aumento de queimadas no Pantanal, a pandemia do coronavírus pode ter colaborado para diminuir a reação ao problema na Amazônia.
    “Mas percebo que o fato talvez não tenha ganhado muita atenção neste ano porque não teve um dia negro em plena tarde de São Paulo”, diz, em referência a 19 de agosto do ano passado, quando partículas de incêndios, associadas a uma massa de ar frio, fizeram “o dia virar noite” na capital paulista.
    Desmonte de órgãos de fiscalização
    Um motivo para o aumento de incêndios e desmatamento, aponta Berenguer, é o desmonte feito pelo governo Bolsonaro a órgãos de fiscalização ambiental. A especialista salienta que o fato transmite a sensação de impunidade.
    Mesmo com o atual cenário de queimadas, o governo cortou recursos do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
    De acordo com uma reportagem da Folha de São Paulo, o Ibama teve corte de 4% para o próximo ano. O instituto terá recursos de R$ 1,65 bilhão — destes, R$ 513 milhões dependem de aprovação do Congresso.
    Ainda segundo a mesma reportagem, o corte de verba no ICMBio foi correspondente a 12,8%. A entidade terá, no próximo ano, R$ 609,1 milhões — destes, R$ 260,2 milhões estão sujeitos a aprovação do Congresso.
    Além do desmonte, Berenguer aponta que críticas do governo Bolsonaro ao Inpe tentam desacreditar os dados do Inpe. “Preferem culpar o mensageiro, em vez de se preocupar com a mensagem”, diz a pesquisadora.
    O discurso de Bolsonaro
    Um dos principais fatores para que os incêndios na Amazônia sejam normalizados, segundo a cientista, é a postura de Bolsonaro em relação ao meio ambiente.
    Um exemplo, aponta a pesquisadora, foi o discurso do presidente na Assembleia Nacional da Organização das Nações Unidas (ONU), na terça-feira (22).
    Em vídeo apresentado na cerimônia, Bolsonaro disse que o Brasil é vítima de “uma das mais brutais campanhas de desinformação”, ao se referir às notícias que citam o descaso dele com o meio ambiente.
    Segundo o presidente, a Floresta Amazônica é uma área úmida, que não permite a propagação do fogo. “Os incêndios acontecem praticamente, nos mesmos lugares, no entorno leste da Floresta, onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência, em áreas já desmatadas”, disse Bolsonaro.
    As afirmações de Bolsonaro durante seu discurso na ONU têm pouco ou nenhum respaldo. Sobre as áreas atingidas pelos incêndios na Amazônia, especialistas nacionais e internacionais têm afirmado que as queimadas frequentes no bioma contribuem para o fenômeno da degradação, que avança em toda a região e deixa a floresta mais seca e vulnerável aos incêndios.
    Estudos do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) revelam que a alta nos incêndios está diretamente relacionada ao desmatamento. “Não existe fogo natural na Amazônia, porque ela não evoluiu com o fogo”, declara Bereguer.
    “Os estudos já apontaram que os incêndios em terras indígenas ou causados por caboclos foram minoria. Isso desmente os argumentos do presidente”, diz a bióloga.
    Em entrevista à BBC News Brasil, na terça-feira (23/9), o pesquisador Carlos Nobre, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo e presidente do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, ressaltou que monitoramentos do Inpe e da agência especial americana, a Nasa, mostram que mais de 80% das queimadas na Amazônia são causadas por grandes propriedades.
    “É o famoso e tradicional processo de expansão da área de agropecuária”, declarou Nobre.
    Em meados de julho deste ano, o governo federal publicou um decreto em que proibiu queimadas em todo o território nacional por 120 dias. A medida, porém, é considerada ineficaz por especialistas, pois não há intensa fiscalização.
    O governo federal afirma que tem tentado combater o fogo na floresta por meio do emprego de militares em operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), realizadas pelas Forças Armadas na região amazônica — a medida teve início no ano passado, após intensa pressão sobre as queimadas no bioma.
    Berenguer destaca que as ações adotadas no combate aos incêndios na Amazônia são insuficientes. “Mesmo com o incômodo e toda a pressão internacional que o governo federal sofre com o desmatamento e as queimadas, a gente não vê medidas efetivas que mudem a situação. Os números comprovam que as coisas não melhoraram em comparação ao ano passado”, declara.
    Para a bióloga, o discurso do presidente reforça a normalização dos problemas enfrentados pela Amazônia e pelos outros biomas brasileiros.
    As consequências das queimadas e do desmatamento
    A pesquisadora de Oxford comenta que há diversos problemas que podem ser causados pelas queimadas e pelo desmatamento na Amazônia.
    Ela explica que uma área atingida por um incêndio nunca mais volta a ser como antes. “Na Amazônia, logo após o fogo há uma perda de 50% das árvores, que morrem porque possuem cascas finas.”
    “Mas os impactos não são apenas imediatos. Há um estudo, ainda em fase de revisão, que aponta que há um excesso de mortes em árvores, por causa do fogo, nos primeiros três anos após o incêndio”, detalha a bióloga.
    Depois de ser afetada pelo fogo, a floresta é tomada por clareiras, que facilitam a entrada de sol e vento e deixa a área mais seca. “Várias árvores não conseguem rebrotar nesses ambientes extremos, muito quentes. Por isso, começam a nascer árvores pioneiras, que crescem rápido em qualquer lugar”, explica a bióloga.
    Entre as consequências da alteração das árvores no local estão, por exemplo, menos armazenamento de carbono — porque as árvores pioneiras costumam ser mais finas e guardar menos carbono em seus troncos — e prejuízo à fauna local, pois costuma haver menos frutos disponíveis na região.
    Berenguer comenta que, com a normalização dos incêndios e do desmatamento, pode haver um ponto em que a floresta perca a capacidade de se regenerar. “Quando você queima uma área mais de uma vez, ela fica totalmente descaracterizada. A cada vez em que é queimada, ela fica mais diferente do que já foi um dia, até o momento em que pode não conseguir mais se recuperar”, diz a especialista.
    A população sente as consequências dos incêndios de diferentes formas. Uma delas é por meio do aumento de internações por problemas respiratórios — situação que se torna comum em períodos de queimadas nos Estados da Amazônia Legal.
    “Além disso, a Amazônia tem um papel fundamental de combater as mudanças climáticas, porque é um grande reservatório de carbono. Mas quando há o desmatamento, esse carbono é queimado, aumentando a quantidade de gases de efeito estufa na atmosfera e colaborando para acelerar as mudanças climáticas”, detalha Berenguer.
    A pesquisadora frisa que os incêndios afetam também a capacidade da floresta levar chuva a outras regiões do país. “Um dos papéis mais importantes da Amazônia, para o Brasil, é a geração de chuva. Ela bombeia água do solo, por meio de suas árvores, para a atmosfera, gerando os famosos “rios voadores”, que levam chuvas a regiões como Centro-Oeste e Sudeste. Essas precipitações são fundamentais, por exemplo, para a sobrevivência do agronegócio e para as nossas hidrelétricas”, diz a estudiosa.
    “Além disso, a Amazônia é a floresta mais biodiversa do mundo. Há uma série de compostos que podem ser descobertos ali (para diferentes finalidades), mas que podem nunca ser encontrados, caso a floresta seja derrubada”, declara.
    Ao avaliar o atual cenário das queimadas no Brasil, Berenguer pontua que um risco para o próximo ano é que os incêndios no Pantanal, mesmo que permaneçam com altos índices como nos últimos meses, sejam normalizados, da mesma forma que ela tem notado em relação à Amazônia atualmente. “Não podemos passar a aceitar isso em nenhum lugar. Precisamos estar atentos. É uma situação que precisa ser combatida”, declara a pesquisadora.
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  • Bióloga viaja ao Pantanal de MT com o marido para comemorar aniversário de casamento e decide trabalhar como voluntária

    Bióloga viaja ao Pantanal de MT com o marido para comemorar aniversário de casamento e decide trabalhar como voluntária

    Luciana Leite disse que, quando chegou no Pantanal, ficou surpresa com a devastação causada pelas queimadas. Luciana e o marido foram até Porto Jofre para ver principalmente as onças-pintadas e se depararam com um cenário devastado
    Arquivo pessoal
    A bióloga Luciana Leite foi até o Pantanal mato-grossense com o marido para comemorar o aniversário de casamento e se deparou com o cenário completamente destruído pelos incêndios. Eles moram em Foz do Iguaçu (PR) e pretendiam passar alguns dias em meio à natureza para comemorar os quatro anos de casados. Por causa disso, ela retornou para atuar como voluntária.
    O casal chegou a Mato Grosso no dia 2 deste mês.
    O desejo era ir até Porto Jofre e visitar o Parque Estadual Encontro das Águas, onde vive a maior concentração de onças-pintadas do mundo.
    Luciana e o marido fizeram o trajeto de carro e, na Rodovia Transpantaneira, principal via de acesso ao Pantanal, se depararam com a paisagem destruída pelas queimadas.
    Bióloga trabalha como voluntária em ações no Pantanal durante queimadas
    Ao chegarem no parque, ainda conseguiram ver algumas onças e grande diversidade de animais.
    “A nossa surpresa foi imensa porque o cenário é de uma paisagem completamente devastada. É muito diferente do Pantanal do que a gente sonhou”, contou.
    A partir dos dias 4 e 5 deste mês, as queimadas se intensificaram e o Parque Estadual Encontro das Águas foi completamente devastado.
    “O Parque das Águas onde vimos as onças queimou completamente. As onças ou conseguiram fugir ou foram resgatadas, aquilo nos deixou muito comovido”, disse a bióloga.
    Luciana e outras três voluntárias
    Instagram/Reprodução
    Ela contou que ao conversar com brigadistas e pantaneiros percebeu a carência de Equipamentos de Proteção Individual (EPI), bombas d’água, tanques e caminhões.
    Daí surgiu a ideia de fazer uma vaquinha online. No dia seguinte ao início da campanha, quando acordou, havia uma doação de R$ 50 mil. Ela então fez uma lista rápida do que poderia comprar com esse dinheiro.
    A princípio, Luciana e o marido ficariam no Pantanal até o dia 9 de setembro, mas ela decidiu retornar. O marido ficou em casa.
    Ela e outras três voluntárias estão entregando marmitas para as pessoas que estão combatendo os incêndios, comprando combustível para os caminhões e equipamentos com o dinheiro da vaquinha. Já são quase R$ 80 mil arrecadados até agora.
    VÍDEOS: INCÊNDIOS NO PANTANAL

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  • O mistério dos vírus mortais que desapareceram sem deixar vestígios

    O mistério dos vírus mortais que desapareceram sem deixar vestígios

    A história de como novas ameaças virais emergem já é familiar, mas o que ocorre no final da existência de um vírus está só agora começando a ganhar interesse. Por que alguns vírus desaparecem? E o que acontece com eles? Além do Sars, apenas dois outros vírus foram levados à extinção propositalmente: varíola e peste bovina
    SCIENCE PHOTO LIBRARY via BBC
    Era o ano 1002. O rei inglês Etelredo II — não tão carinhosamente lembrado como Etelredo, o Despreparado — estava em guerra. Por mais de um século, os exércitos vikings estavam explorando a terra em busca de um novo lar, sob o comando de líderes com pelos faciais bem tratados e nomes evocativos, como Sueno Barba-Bifurcada.
    Até aquele momento, os vikings haviam achado a resistência inglesa tentadoramente fraca. Mas Etelredo decidiu se posicionar. Em 13 de novembro, ele ordenou que todos os dinamarqueses no país fossem presos e mortos.
    Centenas morreram, e o incidente entrou para a história como o massacre do Dia de São Brice. O ato brutal de Etelredo provou ser em vão e, posteriormente, a maior parte da Inglaterra foi governada pelo filho do Barba-Bifurcada.
    Mas o que foi um dia ruim para ser um viking na Inglaterra foi um presente para os arqueólogos modernos. Mais de mil anos depois, 37 esqueletos — que se acredita pertencerem a algumas das vítimas executadas — foram descobertos no terreno do St. John’s College em Oxford. Enterrado com eles, havia um segredo.
    Quando os cientistas analisaram o DNA dos restos mortais no início deste ano, eles descobriram que um dos homens tinha sido duplamente infelizes. Ele não foi apenas assassinado com violência — na época, ele sofria de varíola.
    E houve outra surpresa. Este não era o vírus da varíola com o qual estamos familiarizados na história recente — o tipo que foi notoriamente levado à extinção na década de 1970 por um programa de vacinação.
    Em vez disso, ele pertencia a uma cepa notavelmente diferente, que antes era desconhecida, e que desapareceu silenciosamente há séculos. Parece que a varíola foi erradicada duas vezes.
    Como o vírus ‘some’?
    A vacinação pode ajudar a preparar o sistema imunológico humano para lutar contra os vírus, tornando mais difícil que eles se espalhem
    PA via BBC
    A esta altura, a história de como novas ameaças virais emergem deve ser familiar — o contato próximo com animais infectados, o vírus saltando entre as espécies, o “paciente zero” que o pega primeiro, os super-disseminadores que o carregam pelo mundo.
    Mas o que ocorre no final da existência de um vírus está só agora começando a ganhar interesse. Por que alguns vírus desaparecem? E o que acontece com eles?
    À medida que a ameaça representada por essas formas de vida minúsculas e primitivas fica cada vez mais forte, os cientistas estão correndo para descobrir exatamente isso.
    Um dos vírus que mais recentemente desapareceram foi o causador da Sars. O mundo tomou conhecimento de sua existência pela primeira vez em 10 de fevereiro de 2003, depois que o escritório de Pequim da Organização Mundial da Saúde (OMS) recebeu um e-mail descrevendo “uma estranha doença contagiosa” que matou 100 pessoas no espaço de uma semana.
    Os primeiros casos ocorreram em Guangdong, uma Província costeira no sudeste da China conhecida por seus muitos restaurantes que servem carnes exóticas.
    Na época, os mercados locais fervilhavam de guaxinins, texugos, musangs, pombas, coelhos, faisões, veados e cobras, que muitas vezes eram mortos no local, a poucos metros de onde as pessoas comiam. Era comum encontrar animais decapitados e estripados. Mesmo nos primeiros dias da epidemia, era claro como o Sars havia surgido.
    Dois anos depois, o vírus infectou pelo menos 8.096 pessoas, 774 das quais morreram. Mas poderia ter sido muito pior.
    Como seu parente próximo, o Sars-Cov-2, que causa a Covid-19, o Sars tinha muitas das qualidades necessárias para dominar o mundo – era um vírus de RNA, o que significa que era capaz de evoluir rapidamente e se espalhava por meio de gotículas expelidas ao respirar, que são difíceis de evitar.
    Na época, muitos especialistas temiam que o vírus pudesse causar uma devastação no mesmo nível da crise do HIV, ou até mesmo a pandemia de gripe de 1918, que infectou um terço da população mundial e matou 50 milhões.
    Em vez disso, o Sars desapareceu tão abruptamente quanto chegou. Em janeiro de 2004, havia apenas um punhado de casos — e no final do mês, a última infecção natural suspeita foi anunciada.
    Estranhamente, embora “paciente zero” descreva a primeira pessoa conhecida a ser infectada com um vírus, não há rótulo equivalente para a última pessoa a pegá-lo na natureza. Mas isso provavelmente se aplicaria a um homem de 40 anos com o sobrenome de “Liu”, da cidade de Guangzhou, no sul do país. Houve outro surto alguns meses depois, quando, acredita-se, o vírus escapou de um laboratório de pesquisa de Pequim — duas vezes.
    Então, o que aconteceu?
    Resumindo, tivemos sorte. De acordo com Sarah Cobey, epidemiologista da Universidade de Chicago, o vírus da Sars foi levado à extinção por uma combinação de rastreamento de contatos sofisticado e as peculiaridades do próprio vírus.
    Quando os pacientes com Sars adoeciam, ficavam muito doentes. O vírus tinha uma taxa de mortalidade incrivelmente alta — quase um em cada cinco pacientes morria – mas isso significava que era relativamente fácil identificar aqueles que estavam infectados e colocá-los em quarentena.
    Não houve propagação extra de pessoas sem sintomas e, como bônus, a Sars demorava um tempo relativamente longo para incubar antes de se tornar contagiosa, o que deu aos rastreadores de contato mais tempo para encontrar alguém que pudesse estar infectado antes que pudesse transmiti-lo.
    “Mas também os governos e as instituições agiram muito rapidamente”, diz Cobey.
    O caso de Liu Jianlun, que contraiu o vírus antes de ele ser devidamente identificado, mostra quão diferente a pandemia de Sars poderia ter ocorrido.
    O especialista em medicina respiratória de 64 anos foi infectado após tratar um paciente no hospital onde trabalhava na Província de Guangdong. Em 21 de fevereiro de 2003, Jianlun viajou para Hong Kong para comparecer a um casamento e se hospedou em um quarto no nono andar do Metrópole Hotel.
    Embora estivesse com febre e leves sintomas respiratórios por cinco dias, ele estava bem o suficiente para fazer alguns passeios turísticos com um parente.
    Mas no dia seguinte seus sintomas pioraram, então ele caminhou até um hospital próximo e pediu para ser colocado em isolamento. Na época, ele já havia infectado involuntariamente 23 pessoas, incluindo hóspedes do Canadá, Cingapura e Vietnã, que então carregaram o vírus de volta para seus próprios países, onde novos surtos o espalharam.
    No final, a OMS estimou que cerca de 4 mil casos puderam ser rastreados até Jianlun, que também sucumbiu ao vírus. Sem o esforço global para eliminar a Sars e as características do vírus que tornaram isso mais fácil, não há dúvida de que a pandemia poderia ter saído de controle.
    Infelizmente, essa situação é extremamente incomum. Além da Sars, apenas dois outros vírus foram levados à extinção propositalmente – a varíola e a peste bovina.
    “Não é trivial. É realmente muito difícil quando você tem um vírus que está bem adaptado”, diz Stanley Perlman, microbiologista da Universidade de Iowa.
    A guerra contra esses dois vírus foi vencida com vacinas, que também têm como objetivo eliminar a poliomielite – os casos diminuíram 99% desde os anos 1980 – e possivelmente o sarampo, embora recentemente esses esforços tenham sido prejudicados pela guerra, o movimento antivacina e a covid-19.
    Então, o que dizer dos outros vírus que atormentaram a humanidade nos últimos anos? O ebola vai desaparecer? E para onde foi a gripe suína?
    Infelizmente, é improvável que alguns vírus sejam extintos, porque não somos o único hospedeiro.
    Em humanos, os surtos de ebola acabam o tempo todo. Houve pelo menos 26 em toda a África desde que o vírus foi descoberto em 1976, e esses são apenas os que causaram casos suficientes para serem detectados pelas autoridades de saúde.
    Eles tendem a ocorrer quando o vírus passa de um animal – geralmente um morcego – para um humano, que então infecta outros humanos. Enquanto houver morcegos, o ebola talvez sempre esteja conosco, independentemente de haver uma única pessoa infectada em qualquer parte do planeta.
    Na Guiné, uma análise de Emma Glennon e colegas da Universidade de Cambridge descobriu que tipos sutilmente diferentes de ebola provavelmente passaram de um animal para uma pessoa aproximadamente 118 vezes diferentes, muitas vezes sem que ninguém percebesse.
    Na verdade, a quantidade de variação genética entre as cepas responsáveis ​​por diferentes surtos sugere que esses eventos de “transbordamento” são alarmantemente comuns.
    Embora o décimo surto de ebola que assolou a República Democrática do Congo tenha sido declarado oficialmente encerrado em 25 de junho deste ano – e não há evidências de que a cepa que o causou tenha persistido em humanos -, naquele momento outro já havia começado.
    O 11º surto está atualmente confinado ao noroeste do país e acredita-se que seja causado por um novo tipo de ebola, que foi adquirido de um animal totalmente independente de todos os outros.
    Tarefa quase impossível
    As autoridades de saúde locais e a OMS enfrentam vários outros desafios quando se trata de combater o ebola. A falta de financiamento dificultou a vigilância dos casos de ebola, ao passo que a presença de grupos armados nas áreas afetadas está tornando isso inseguro para os profissionais de saúde.
    Também há relutância entre alguns em procurar tratamento para o ebola, com as pessoas preferindo permanecer em suas comunidades. Das seis espécies de ebola, há apenas uma vacina para uma delas — o tipo que matou 11 mil pessoas na África Ocidental entre 2013 e 2016.
    Mesmo com um esforço hercúleo para erradicar o vírus das populações humanas, ele ainda continuará circulando em seu hospedeiro original — os morcegos.
    Isso significa que a única maneira de levar o vírus à extinção é eliminá-lo na natureza, o que é uma tarefa quase impossível.
    Da mesma forma, acredita-se que o Mers, que atingiu as manchetes mundiais em 2012 quando surgiu pela primeira vez após infectar humanos a partir de camelos, foi passado para outras pessoas em centenas de ocasiões diferentes.
    “A Sars foi embora porque não há outro hospedeiro óbvio”, diz Perlman. Acredita-se que a Sars saltou para os humanos por meio de um musang, um mamífero da selva que mora em árvores e é considerado uma iguaria na China.
    Perlman aponta que o vírus não pode simplesmente recuar de volta para esta espécie, porque eles não são comumente infectados — o animal que o passou a um humano foi provavelmente um dos poucos que foram infectados e pode ter contraído diretamente de um morcego.
    O mesmo não pode ser dito sobre o novo coronavírus, que, mais uma vez, acredita-se que tenha pertencido originalmente a morcegos antes de ter brevemente passado para outro animal – possivelmente pangolins – e eventualmente humanos.
    “Com a Covid-19, o reservatório agora somos nós”, diz Perlman. Na verdade, o Sars-Cov-2 se tornou um vírus tão humano que os cientistas começaram a se perguntar se ele se espalhará ao contrário — dos humanos para a vida selvagem, em uma espécie de “transbordamento reverso”. Isso o tornaria ainda mais difícil erradicar.
    Isso nos leva a outro cenário possível, que envolve vírus que existem continuamente nas pessoas. Embora possam ficar na nossa espécie para sempre, acontece que linhagens individuais de vírus desaparecem com notável regularidade.
    Veja a gripe, da qual existem dois tipos principais.
    Em primeiro lugar, há a influenza A, que infecta muitos outros animais, bem como humanos — principalmente pássaros aquáticos, de patos e gansos a animais selvagens raros da Antártica, como o petrel gigante — mas está sempre conosco de uma forma ou de outra. Esse tipo é responsável pela maioria dos casos de gripe sazonal – e também causa pandemias.
    Depois, há a influenza B, que infecta apenas humanos e — estranhamente — focas, e nunca causa pandemias.
    Durante anos, pensou-se que as cepas de influenza A com as quais vivemos estão em constante evolução para serem mais capazes de nos infectar. Mas as pesquisas científicas mais recentes mostram que esse não é o caso.
    Acontece que qualquer pessoa que morreu antes de 1893 nunca terá sido infectada com nenhuma das cepas de influenza A que existem hoje. Isso porque todos os vírus da gripe que existiam em humanos até cerca de 120 anos atrás foram extintos.
    A cepa que causou a pandemia de 1918 também desapareceu, assim como a que levou ao surto de gripe aviária em 1957, que matou cerca de 116 mil pessoas nos Estados Unidos, e o tipo de gripe que circulava em 2009, antes do surgimento da gripe suína.
    As cepas de gripe estabelecidas tendem a continuar evoluindo por muitos caminhos diferentes – então, a grande maioria será extinta abruptamente. A cada poucas décadas, um novo tipo de gripe irá evoluir para substituí-los, geralmente feito de uma combinação de vírus da gripe antigos e novos, recém-chegados de animais.
    “É realmente interessante porque se você estiver focado em qualquer cepa em particular – ou melhor, em qualquer sequência genética particular que está se replicando – há uma taxa de extinção muito, muito alta”, diz Cobey.
    “As cepas estão morrendo a cada dois anos agora. É complicado, mas estamos vendo uma rotatividade muito alta.”
    Curiosamente, em vez de se adaptar aos humanos ao longo do tempo, parece que o H1N1 — o tipo que causou a pandemia de gripe e a gripe suína de 1918 e agora desapareceu — vinha acumulando mutações silenciosamente que eram inúteis ou até mesmo ativamente prejudiciais à sua própria sobrevivência.
    Agora, alguns cientistas estão sugerindo que acelerar esse processo pode nos permitir usar a rápida evolução dos vírus humanos endêmicos a nosso favor.
    A ideia já existe há algum tempo como uma forma de nos livrarmos da gripe e resfriados – mas recentemente também foi sugerida como um método de combate à covid-19.
    Mutações demais
    No centro do plano está a estrutura dos “vírus de RNA” — um grupo que inclui muitos dos patógenos mais intratáveis ​​da humanidade, incluindo HIV, gripe, coronavírus e ebola. Seu material genético é feito de RNA em oposição a DNA, o que significa que quando eles sequestram a máquina de seu hospedeiro para se copiarem, eles não incluem uma etapa de “revisão” em que verificam se há erros.
    Isso geralmente é considerado uma coisa ruim para os humanos, porque essas mutações significam que existe uma quantidade extraordinária de diversidade genética entre os vírus de RNA, permitindo que eles evoluam rapidamente — então, quaisquer vacinas ou medicamentos que os visem se tornam obsoletos rapidamente.
    “Embora gostemos de pensar nas cepas de gripe como uma sequência unitária, na verdade, o que elas representam é uma série de sequências genéticas diferentes”, diz Lipton.
    No curto prazo, essa peculiaridade torna mais difícil erradicar a gripe, porque nessa série podem estar vírus que nosso sistema imunológico não reconhece e, portanto, são capazes de se infiltrar em nosso corpo sem serem notados.
    Mas essa taxa impressionante de mutação é uma faca de dois gumes. Acima de uma certa taxa, as mutações tornam-se prejudiciais, levando a cepas de vírus carregadas de falhas genéticas que impedem sua disseminação. Eventualmente, isso pode levar à sua extinção.
    Acelerar a evolução viral artificialmente com drogas que os estimulam a sofrer mutações a uma taxa ainda maior do que o normal pode trazer alguns benefícios.
    Primeiro, pode enfraquecer o vírus o suficiente para reduzir a quantidade que circula dentro de cada paciente. Isso pode tornar mais fácil o tratamento em pessoas com doenças graves.
    Já existem algumas evidências de que isso pode funcionar — ensaios clínicos nos EUA e no Japão descobriram que o medicamento indutor de mutação “favipiravir” é eficaz contra a cepa de gripe H1N1. A virologista Elena Govorkova, do St. Jude Children’s Hospital em Memphis, Tennessee, e sua equipe mostraram que a droga parece tornar o vírus da gripe menos infeccioso.
    Em segundo lugar, certas cepas de vírus, como os tipos de Covid-19 — dos quais já existem pelo menos seis — podem acumular mutações suficientes que são prejudiciais a si mesmas para que desapareçam por completo. Na Índia, já há evidências de que isso pode estar acontecendo naturalmente.
    O vírus está sofrendo mutações em um ritmo vertiginoso e foi sugerido que ele poderia estar se dirigindo em direção a um penhasco evolutivo sozinho.
    No entanto, por mais que tentemos, alguns cientistas estão céticos de que algum dia seremos capazes de dizer que qualquer vírus se foi para sempre.
    “O termo ‘extinto’ talvez seja enganoso”, diz Ian Lipkin, epidemiologista da Columbia University, em Nova York.
    “Os vírus podem estar presentes em muitos locais – eles podem se esconder nas pessoas, eles podem se esconder em materiais que são armazenados em freezers, eles podem se esconder na vida selvagem e em animais domésticos – é realmente impossível dizer se um vírus foi extinto.”
    Ele aponta que os frascos de varíola ainda existem em freezers em pelo menos dois locais — e há um debate em andamento sobre se devemos levá-los à extinção de forma mais definitiva.
    Como a maioria dos programas de vacinação terminou na década de 1970, muitos estão preocupados com o fato de que esses raros estoques de varíola podem ter o potencial de desencadear outra grande pandemia global.
    Isso sem mencionar a ameaça latente dos vírus sintéticos – em 2017, uma equipe de cientistas canadenses ressuscitou o vírus do “horsepox”, um parente próximo da varíola, que poderia ou não estar extinto.
    Como acontece com muitos outros vírus, ninguém sabe ao certo se ele morreu, mas os cientistas foram capazes de recriá-lo usando registros de seu código genético e fragmentos de DNA.
    Claro, isso não significa que nossos esforços de erradicação sejam inúteis. Na verdade, Cobey pensa agora, mais do que nunca, que devemos nos concentrar em reduzir a quantidade de patógenos humanos.
    “Espero que este seja um período em que possamos refletir sobre que tipo de doenças queremos trabalhar para erradicar”, diz ela. “Existem muitos patógenos por aí — a maioria das pessoas não reconhece quantos.”
    Quem sabe, talvez a Covid-19 inspire uma nova revolução científica, e o conceito de pegar vários resfriados ou gripes a cada ano se tornará tão estranho quanto ter que se preocupar com a varíola.
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  • Organização criminosa atua há décadas na exploração de diamantes em terra indígena de Rondônia, diz PF

    Organização criminosa atua há décadas na exploração de diamantes em terra indígena de Rondônia, diz PF

    Polícia Federal iniciou uma operação na manhã desta quinta-feira (24) para cumprir 53 mandados em vários estados. Ação revelou esquema envolvendo garimpeiros, indígenas, empresários e intermediador. Operação da PF mira exploração ilegal de diamantes em terras indígenas em RO
    A organização criminosa especializada na exploração ilegal de diamantes já atua há décadas dentro da Terra Indígena Roosevelt em Espigão D’Oeste (RO), na Zona da Mata. É o que afirma o delegado da Polícia Federal (PF) que conduz a Operação Crassa, deflagrada nesta quinta-feira (24).
    Em entrevista na delegacia de Pimenta Bueno (RO), cidade vizinha a Espigão D’Oeste, o delegado Márcio Lopes explicou que a investigação do caso começou há cerca de dois anos.
    “A operação [de hoje] visa desarticular a organização criminosa que atua há décadas na exploração de diamantes na reserva Roosevelt. A investigação aponta que essa organização atua em núcleos que cada um tem o seu papel crucial para o bom desempenho da atividade criminosa”, diz o delegado.
    Diamante apreendido durante investigações da Operação Crassa em Rondônia
    PF/Divulgação
    O delegado revela existir, dentro do esquema, a participação de lideranças indígenas, garimpeiros (que atuam diretamente na reserva indígena), financiadores do garimpo, e pessoas que investem altas quantias na aquisição de maquinários para diuturnamente explorar a reserva indígena.
    “Há também a figura dos intermediadores que estabelecem a conexão entre os fornecedores aqui de Rondônia com o mercado consumidor nacional e internacional”, afirma.
    A PF iniciou a operação para cumprir 53 mandados de busca e apreensão nesta quinta-feira, além de bloqueios de bens, imóveis e móveis, por determinação da Justiça Federal, da seção judiciária de Porto Velho.
    “Importante mencionar que o papel das lideranças indígenas, nessa atuação da organização criminosa, consiste em autorizar que garimpeiros e financiadores do garimpo explorem a área da reserva. Não é possível a entrada de garimpeiros na reserva sem a permissão da liderança indígena, que são remuneradas ou em pecúnia ou propriamente com pedras de diamantes”, afirma Márcio Lopes.
    Operação Crassa
    Ação da PF mira exploração ilegal de diamantes em terras indígenas
    São 53 mandados de busca e apreensão no interior de Rondônia e em São Paulo, Roraima, Paraná, Piauí, Mato Grosso, Minas Gerais e Distrito Federal, através da operação Crassa.
    Os diamantes, segundo investigação, eram retirados ilegalmente e passavam por avaliação do intermediador até serem vendidos em joalherias — principalmente em São Paulo e no exterior, em países como França, Itália e Suíça.
    Os diamantes da reserva estão entre os que são considerados os mais valiosos do mundo. De acordo com a investigação da PF, o esquema criminoso movimenta cerca de US$ 20 milhões por mês.
    Gravações revelam esquema
    Conversas entre garimpeiros, obtidas pelo G1, revelam como funcionava a exploração de diamantes na reserva indígena Roosevelt. Em uma delas, dois garimpeiros falam em vender pedras por US$ 5 milhões na Suíça.
    VEJA O DIÁLOGO DA NEGOCIAÇÃO
    Em uma das chamadas, um garimpeiro fala sobre um italiano que iria comprar os diamantes para depois revender em países da Europa.
    A reserva Roosevelt, de onde os diamantes eram extraídos pelos criminosos, tem uma área de 231 mil hectares e fica localizada entre a divisa de Rondônia e Mato Grosso. Na área existem dois povos indígenas, entre eles o Cinta Larga.
    A reserva Roosevelt é considerada uma região de conflitos. Em dezembro de 2015, dois madeireiros foram assassinados dentro da reserva enquanto praticavam a extração ilegal de diamantes. O indígena suspeito de ter cometido o crime foi preso.
    Local onde acontece extração ilegal de diamantes próximo a Espigão D’Oeste em Rondônia
    PF/Divulgação
    Veja mais vídeos de Natureza e Meio Ambiente

  • Gravação mostra garimpeiros negociando diamantes de terra indígena de RO para vender na Suíça por US$ 5 milhões

    Gravação mostra garimpeiros negociando diamantes de terra indígena de RO para vender na Suíça por US$ 5 milhões

    Esquema foi revelado durante operação da PF nesta quinta-feira (24) em Rondônia. PF cumpriu mais de 50 mandados de busca e apreensão. Diamantes apreendidos durante investigações da Operação Crassa em Rondônia
    PF/Divulgação
    Gravações telefônicas obtidas com exclusividade pelo G1 revelam como funcionava parte do esquema de exploração ilegal de diamantes na Terra Indígena Roosevelt, em Espigão D’Oeste (RO), região da Zona da Mata. Em uma das conversas, dois garimpeiros falam em vender pedras por US$ 5 milhões na Suíça.
    O esquema foi revelado nesta quinta-feira (24) através da Operação Crassa, da Polícia Federal (PF). Entre os investigados estão indígenas, garimpeiros, intermediadores responsáveis por avaliar o valor das pedras preciosas e também por fazer a ponte com os compradores, e empresários.
    Organização criminosa atua há décadas na exploração de diamantes em terra indígena, diz PF
    Em uma ligação de 14 minutos, interceptada pela PF em maio de 2019, dois garimpeiros identificados como Luciano e Nilson negociam duas pedras de diamantes (avaliadas em R$ 250 mil cada uma) oriundas da reserva Cinta Larga.
    Na ocasião, Nilson diz estar com um italiano que compra diamantes em Rondônia e os revende fora do Brasil. A pretensão da dupla é ganhar comissão (2,5% para cada um) sobre a venda dessas pedras para esse estrangeiro.
    – LUCIANO: Era o tempo que você era meu amigo, Nilson.
    – NILSON: Fala isso não, rapá. Pô, eu tô trabalhando em cima do italiano pra ver se eu arrumo alguma coisa pra nós, se você precisar. Ixe maria. E aí, como ficou com esse seu amigo comprador aí?
    – LUCIANO: Amanhã nós vamos topar de novo, mas assim… Sabe aquelas duas pedrinhas que eu te mandei? Ele tá “enxuriçado” nessas duas pedrinhas.
    – NILSON: É ué, vende pra ele, ué, se ele quiser mesmo, né.
    – LUCIANO: Mas ele quer aqui, aqui o povo não traz, não tem jeito, cê conhece Rondônia.
    – NILSON: É… Não traz, é esse o problema.
    – LUCIANO: Aí eu falei pra ele que o cara queria 250 mil nessas duas pedrinhas. Né…
    – NILSON: Aham…
    – LUCIANO: Vale?
    – NILSON: Eu não sei… Foto é complicado a gente dar valor.
    – LUCIANO: Uma de 4 CT (quilate), outra de 7 CT.
    – NILSON: 11 CT por 250 mil reais…
    – LUCIANO: É, mas é uma pedra única, né, não é separado, né.
    – NILSON: É… mas não tá barato não, velho.
    – LUCIANO: Não, assim, eu vou te falar a verdade, eu joguei 250 mil pra ver se ele fica com uma daquele patrocínio, né, pra tirar ele de cabeça. Aí ele quer porque quer essa aí e ainda paga comissão.
    – NILSON: Opa, ô, isso é bom.
    – LUCIANO: É bom, só que eu não tenho dinheiro pra ir buscar ela, ué.
    – NILSON: Ah, entendi.
    – LUCIANO: E eu pago 90 nas duas.
    – NILSON: Ô rapaz, vai ganhar [falas sobrepostas], tá ganhando o dobro aí, pô.
    – LUCIANO: Então, só que eu já joguei um preço alto pra ele tirar de cabeça, entendeu, o cara peitou. Porque eu sei que o povo não traz aqui.
    – NILSON: Não traz nada, os cara tem medo de ser roubado.
    – LUCIANO: Uhum. Eu acho que esse cara não é ladrão, porque veio na minha casa. Mandou o mandante dele na minha casa. Ladrão não faz isso.
    – NILSON: Não faz mesmo não. Pelo menos não tem essa característica né.
    – LUCIANO: É. Mas talvez pode ser um galo cego da vida, que eles fala né.
    – NILSON: É, pode ser malandro, né.
    – LUCIANO: Mas só que o cara já comprou vários DI pra ele né, igual ocê com o menino lá.
    – NILSON: Com o italiano, né.
    – LUCIANO: Com o italiano. Isso… eu fui fazer uma pergunta do comprador, ele: não, pode ficar tranquilo, isso aí eu garanto, se der algum problema eu mesmo pago as despesas. Então…
    Luciano diz que conhece o rapaz da cidade, que ele não é quebrado.
    – NILSON: Olha só, eu falei agora com o italiano agora há pouco, uma porcaria de ligação, ele me ligou, não consegui entender bem. Mas parece que ele já tá chegando no Paraguai, aí ele vai me ligar. Tô só esperando ele me dar uma ligada, mas eu tava esperando pra amanhã, ele me ligou hoje… uma ligação muito ruim.

    Na ligação, Luciano diz que precisava fechar um negócio de pelo menos 2 mil CT (quilates) para poder andar sozinho por Rondônia e buscar material. Nilson diz ainda que o italiano não tem pedra, ele compra pra revender. “Ele vai na boa, porque ele marca com os caras, vê se o negócio é sério, se for sério, ele paga e revende lá fora, onde ele ganha dinheiro”.
    Em outra chamada, no dia seguinte, Nilson diz a Luciano que falou ao italiano que o diamante negociado não tem documento. Luciano responde dizendo que “nada em Rondônia tem documentação”.
    Nilson então pede se Luciano não consegue uma nota com alguma cooperativa. Luciano promete tentar conseguir, pois tem que ir com “calma”.
    A ligação continua e Nilson fala que se conseguir as documentações o Italiano vende a pedra na Suíça por U$$ 5 milhões.
    – LUCIANO: Então, duro que essa merda não tem documento, Nilson. É por isso que precisa…
    – NILSON: Ah, não tem não…
    – LUCIANO: Ela não tem. Nada lá em Rondônia tem.
    – NILSON: Ah, essa também é de Rondônia?
    – LUCIANO: De Rondônia.
    – NILSON: Mas a gente não consegue uma nota de cooperativa lá não, ô Luciano?
    – LUCIANO: Aí é que tá. Por isso que a gente tem que ir primeiro com tempo, dar um pulinho no Pará, ir na cooperativa, trocar uma ideia lá, eles dando o OK a gente vai pegar a pedra. Se possível, pega foto dela, entendeu, e o peso certinho, tudo certinho, pescadinho, e já faz a nota, vai lá e busca.
    – NILSON: Ele falou que tem comprador pra essa pedra lá na Suíça.
    – LUCIANO: Ah, isso aí é certeza. O duro é que não tem nota.
    – LUCIANO: E ela tá barata, ela tá 5 milhões de reais. Por ser uma pedra desse tamanho, entendeu. Se agora… com a documentação ela vai sair com uns 7 [milhões]. Ele vende ela por 5 milhões de dólares.
    – NILSON: É, talvez. Ele falou alguma coisa parecida com isso mesmo, ele falou: eu acho que uns 4 milhões de dólares, 4 milhões e meio eu vendo essa pedra lá.
    – LUCIANO: Aí, o cara quer 5 [milhões], entendeu. Você chega nele e fala: eu pago 5, com a nota. Você cobre a nota?
    LUCIANO: Talvez a gente consegue nota ali do Espigão, porque Espigão é cooperativa, cooperativa pode tirar nota.

    Na sequência da ligação Nilson perece mencionar o nome do italiano (Pasquale).Nilson ainda pergunta em que cidade mora Luciano, e ele responde ser em Uberlândia (MG).
    Em uma chamada no outro dia, o garimpeiro Luciano conversa com um negociador, chamado Paulo, e diz que irá até Rondônia buscar os dois diamantes comentados por Nilson.
    Paulo então afirma ter pedras de 106, 30, 26 e 40 quilates (CT), sendo a maior avaliada em US$ 1,2 milhão.
    – LUCIANO: Fala comigo.
    – PAULO: Então, o cara, a pedra é de 106 CTs, pra pedirem 1 milhão e 200 mil dólares nela, aí cê vê, tem pedra de 30, tem pedra de 26, tem pedra de 40, é só levar o comprador.
    – LUCIANO: Uhum. Não, beleza, amanhã nós tamos topando, porque amanhã nós vai topar lá em Rondônia. Tá?
    – PAULO: Uhum.
    – LUCIANO: Sabe aquelas duas pedrinhas?
    – PAULO: Sei.
    – LUCIANO: Relevou elas, tô indo buscar.
    – PAULO: Não, beleza…
    – LUCIANO: É uma vantagem pra mim, que aí eu tenha 100% de certeza que o cara é pagador, né, Paulo?
    – PAULO: Não, beleza, aí você me fala.
    – LUCIANO: Aí nós vamos lá, e de lá eu vou acertar o que tiver que acertar lá, aí eu vou puxar ele pra patrocínio, aí eu te ligo.
    – PAULO: Não, beleza então, nós vai falando então.
    Reserva Roosevelt
    A reserva Roosevelt, de onde os diamantes eram extraídos pelos criminosos, tem uma área de 231 mil hectares e fica localizada entre a divisa de Rondônia e Mato Grosso. Na área existem dois povos indígenas, entre eles o Cinta Larga.
    A reserva Roosevelt é considerada uma região de conflitos. Em dezembro de 2015, dois madeireiros foram assassinados dentro da reserva enquanto praticavam a extração ilegal de diamantes. O indígena suspeito de ter cometido o crime foi preso.
    Policiais Federais ocuparam a Reserva Roosevelt ainda em dezembro daquele ano, na segunda fase da Operação Crátons, onde resultou na prisão de nove pessoas, sendo seis indígenas.
    Com a ocupação, os federais passaram a ter acesso livre a reserva. O objetivo era acabar com a atividade ilegal de extração de diamantes e madeira dentro da reserva, que pertence ao povo indígena Cinta Larga.
    Operação Crassa
    Polícia Federal faz operação contra o garimpo ilegal de diamantes em terras indígenas
    Os diamantes, segundo a PF, eram retirados ilegalmente e passam por avaliação do intermediador até serem vendidos em joalherias — principalmente em São Paulo e no exterior, em países como França, Itália e Suíça.
    Os diamantes da reserva estão entre os que são considerados os mais valiosos do mundo. De acordo com investigação da PF, o esquema criminoso movimenta cerca de US$ 20 milhões por mês.
    No total são cumpridos 53 mandados de busca e apreensão no interior de Rondônia e em São Paulo, Roraima, Paraná, Piauí, Mato Grosso, Minas Gerais e Distrito Federal.
    Extração ilegal de diamantes na Terra Indígena Cinta Larga em Rondônia
    PF/Divulgação
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  • PDT pede ao Supremo que mande Bolsonaro explicar falas na ONU sobre Amazônia e Pantanal

    PDT pede ao Supremo que mande Bolsonaro explicar falas na ONU sobre Amazônia e Pantanal

    Em discurso na Assembleia das Nações Unidas, presidente disse que ‘índio’ e ‘caboclo’ são responsáveis por queimadas. Partido quer que ele esclareça ‘se houve equívoco’ nas afirmações. O PDT pediu ao Supremo Tribunal Federal para determinar ao presidente Jair Bolsonaro que preste esclarecimentos a respeito das declarações sobre meio ambiente no discurso na Assembleia das Nações Unidas.
    Durante o evento, nesta terça-feira (22), o presidente afirmou em um vídeo gravado exibido na abertura da sessão que o Brasil é “vítima” de uma campanha “brutal” de desinformação sobre a Amazônia e o Pantanal.
    No discurso, Bolsonaro disse que a floresta amazônica é úmida. Por isso, afirmou, o fogo não se alastra pelo interior da mata e atinge somente as bordas da floresta. Segundo ele, os responsáveis pela queimadas são o “índio” e o “caboclo”. Sobre o Pantanal, Bolsonaro afirmou: “As grandes queimadas são consequências inevitáveis da alta temperatura local, somada ao acúmulo de massa orgânica em decomposição”.
    Em discurso na ONU, Bolsonaro diz que o Brasil é alvo de campanha de ‘desinformação’
    O pedido feito pela sigla é uma interpelação judicial, instrumento para solicitar esclarecimentos na Justiça, quando há dúvidas sobre declarações.
    A depender das respostas, quem se sente ofendido pode acionar a Justiça para pedir condenação por calúnia, difamação ou injúria.
    O PDT quer que Bolsonaro esclareça “se houve equívoco” nas afirmações. O partido pediu que o presidente explique:
    qual é a fonte de informação que o permitiu inferir que caboclos e indígenas estariam realizando queimadas na floresta amazônica, para subsistência
    quais estudos servem de subsídio para o argumento de que as queimadas no Pantanal seriam ocasionadas por fatores naturais
    se tem provas concretas de que povos indígenas e caboclos realizam queimadas para sua subsistência
    se já foi tomada alguma medida investigativa para esclarecer os fatos e punir indígenas e caboclos que estejam realizando queimadas
    quais informações detém sobre o assunto, como as obteve e como as comprova
    “Frise-se que a forma como o discurso foi construído abre espaço para uma grande margem de dúvida, porquanto lança uma informação incompleta, sem delinear quais povos indígenas seriam responsáveis pelas grandes queimadas e tampouco quais estudos corroboram entendimento de que incêndios no Pantanal foram originados por fatores meramente ambientais”, diz o texto da ação impetrada no Supremo.
    Segundo o partido, as alegações de Bolsonaro são de teor “gravíssimo e inconsequente”.
    “Além eximir o governo federal de culpa, visto que a responsabilidade pela fiscalização é deste, incita a proliferação de xenofobia contra a população indígena e cabocla, que foi injustamente culpada pelo ocorrido”, afirmou a legenda ao STF.

  • Parque Estadual do Ibitipoca reabre para visitação no dia 30 de setembro

    Parque Estadual do Ibitipoca reabre para visitação no dia 30 de setembro

    Unidade de conservação foi fechada em março por causa da pandemia de Covid-19. Número de visitantes foi reduzido em 50% e será necessário agendamento prévio. Parque estadual de Ibitipoca / MG
    Amilton Fortes
    O Parque Estadual do Ibitipoca, que está fechado desde março por causa da pandemia de coronavírus, já tem data para reabertura: 30 de setembro. A informação foi confirmada pela gestora do parque, Clarice Silva, durante uma live do Instituto Estadual de Florestas (IEF) na noite desta quarta-feira (23).
    O G1 já havia antecipado que a unidade de conservação seria aberta até o fim deste mês. A medida ocorre após o Governo de Minas permitir a abertura de parques, unidades de conservação e museus na Onda Amarela do programa Minas Consciente.
    O parque está localizado no distrito de Conceição do Ibitipoca, em Lima Duarte, que está na etapa intermediária do plano, a onda amarela.
    De acordo com o Comitê Covid-19 do Estado, na reabertura os parques que têm limitação de visitantes devem abrir com 50% da capacidade.
    Neste caso, o Parque de Ibitipoca vai abrir com a limitação de 500 visitantes por dia, com agendamento prévio para visitação pelo site do IEF para que não ocorra aglomeração na portaria. O funcionamento dos campings segue suspenso.
    O IEF irá informar sobre como funcionará o agendamento prévio na próxima segunda-feira (28). Em 2019, o parque recebeu quase 90 mil visitantes.
    Durante a live, Clarice avaliou que a reabertura é muito positiva, principalmente para os moradores de Conceição do Ibitipoca. “Essa notícia mexe com a vida de muita gente, o pessoal da comunidade e os visitantes apaixonados pelo parque”, contou a gerente na transmissão.
    Para realizar a reabertura, Silva pontuou a importância do diálogo com os colaboradores do IEF e dos moradores do distrito.
    “Nossa maior preocupação não era o parque em si, mas o turismo. Nós tínhamos essa preocupação muito grande com a comunidade, que é a porta de entrada para o turista: ele vai se hospedar em algum lugar, comer em algum lugar. Agora as coisas estão reabrindo e entendemos como um momento certo”, afirmou.
    ‘Simulado’ com moradores
    Ainda durante a transmissão, Clarice Silva afirmou que os moradores do distrito de Conceição do Ibitipoca, que estão cadastrados no sistema do IEF, terão a visita “exclusiva” e gratuita dentro do parque na terça-feira (29), um dia antes da reabertura.
    Esta visita também será feita através de agendamento pelo site da instituição na partir de segunda-feira (28). De acordo com a gerente, essa iniciativa funcionará como um “simulado” para os funcionários e as equipes do instituto, na preparação para receber os turistas e visitantes no parque após quase seis meses fechado.
    Parque Estadual do Ibitipoca – Pico da Lombada é o ponto mais alto do parque e um dos atrativos do Circuito Janela do Céu
    Dimas Stephan/G1
    Reabertura dos parques
    O Instituto publicou no dia 10 de setembro no Diário Oficial de Minas Gerais, a Portaria 94, que autoriza a reabertura da visitação nas unidades de conservação sob a gestão do Estado.
    Segundo o IEF, a reabertura deverá observar a realidade de cada município de acordo com as ondas do plano Minas Consciente e também uma série de critérios descritos na portaria.
    Unidades de conservação inseridas em territórios que estiverem nas ondas amarela e verde estão liberadas para a retomada da visitação, enquanto aquelas que estiverem em áreas com onda vermelha permanecerão fechadas ou terão que interromper a visitação em caso de regressão.
    De acordo com a portaria, todos os visitantes e funcionários dos parques que estiverem reabertos para o acesso do público deverão usar máscaras. No caso das unidades onde normalmente são formadas filas para o acesso, haverá a marcação de espaços para posicionamento de cada visitante enquanto aguarda, com distanciamento de dois metros.
    Cada unidade vai desenvolver o protocolo específico e será verificada a possibilidade de realização de visitas por meio de agendamento, assim como do pagamento prévio das entradas.
    A portaria também determina que o uso das estruturas destinadas à hospedagem de visitantes e pesquisadores e das estruturas de apoio à visitação, como restaurantes e lanchonetes, deve obedecer às orientações previstas no protocolo sanitário do Minas Consciente.
    Todas as cavidades abertas à visitação dentro das unidades que exigirem equipamentos de uso pessoal e coletivo, tais como capacetes, lanternas, coletes, máscaras, calçados, vestimentas, dentre outros, deverão estabelecer procedimentos e mecanismos para a completa desinfecção destes itens.
    As unidades poderão limitar o número de visitantes e promover o aumento gradativo ao longo do tempo e do espaço, visando evitar aglomerações ou picos de visitação em determinados locais, dias ou horários.
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