Meio Ambiente

Como a Ciência explica o 'enxame de terremotos' na Bahia

De domingo até a manhã desta terça-feira, a Bahia registrou 14 terremotos, todos na cidade de Amargosa. Diversas casas ficaram danificadas após os tremores. Casas da cidade de Amargosa, na Bahia, ficaram danificadas após terremotos seguidos
Edson Aparecido/Dicom Prefeitura de Amargosa
De domingo (30) até a manhã da terça-feira (1º), a Bahia registrou 14 terremotos, todos na cidade de Amargosa, Recôncavo do Estado, de acordo com a Rede Sismográfica Brasileira (RSBR).
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As imagens de imóveis danificados e prateleiras de um mercado sendo chacoalhadas pelo abalo mais forte, que atingiu a magnitude de 4,6 na Escala Richter, logo correram as redes sociais. Muita gente achava se tratar de um fenômeno inédito, mas não era.
“Esses abalos na região ocorrem com frequência e há muito tempo. Temos registros de eventos pelo menos nos últimos 100 anos. Mas hoje temos melhores instrumentos de registro e, com a expansão urbana e o aumento da densidade populacional, as pessoas também sentem. Se onde hoje tem uma casa há alguns anos era uma área verde, ninguém estava ali pra sentir o tremor”, observa a geóloga Simone Cruz, professora do Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia (Igeo/Ufba) e presidente da Sociedade Brasileira de Geologia (SBG).
Junto com mais cinco pesquisadores do Igeo, Simone integra uma comissão que acaba de ser criada pela diretoria do Instituto, justamente com o objetivo de estudar o caso de Amargosa.
“Sabemos que este fenômeno é causado pela dinâmica interna do planeta, com a movimentação de placas gerando liberação de energia e resultando no terremoto. Mas apontar uma causa específica para essa sequência de tremores ainda não é possível. Agora é o momento de pesquisar.”
‘Enxame sísmico’
A sequência a que a pesquisadora se refere é chamada de “enxame sísmico”. Este é um fenômeno que se configura quando um terremoto não ocorre de forma isolada. Ao contrário, são diversos abalos que surgem de maneira associada. Um tremor inicia o processo e, como que ecoando o primeiro, vão ocorrendo várias réplicas – ou terremotos secundários.
Carlos Uchôa, professor de Geologia da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs/BA), diz que, cientificamente, não é possível saber quando a terra terá liberado toda a energia e voltará a “adormecer”.
Na mesma região do Recôncavo Baiano, ele lembra, uma sequência de tremores durou três dias em 2002. Na cidade de João Câmara (RN), entretanto, um enxame de abalos sísmicos levou três anos para se dissipar, de 1987 a 1989.
Acontece que tanto Amargosa quanto João Câmara estão situadas em zonas chamadas de sismogênicas, ou seja, aquelas onde a propensão a terremotos é maior.
No Brasil, as zonas mais ativas estão no Nordeste, com destaque para a Bacia do Recôncavo, a região de João Câmara e a área da cidade de Palhano (CE), onde em 1980 um terremoto alcançou a magnitude de 5.2 e chegou a causar danos na capital, Fortaleza, distante cerca de 150 quilômetros.
O abalo mais forte registrado na cidade de Amargosa ocorreu no sábado. Ele atingiu 4.6 na Escala Richter
Edson Andrade/Dicom Prefeitura de Amargosa
“A liberação da energia ocorre no deslocamento entre falhas geológicas. Daí surgem as ondas sísmicas. Essas ondas vão viajando e perdendo gradativamente a força. Por isso que no epicentro do tremor se sente muito mais, mas o abalo pode ser sentido a muitos quilômetros de distância”, explica Uchôa.
No domingo, moradores de diversos bairros de Salvador relataram ter sentido os efeitos do terremoto, mesmo com os cerca de 160 quilômetros que separam a capital baiana de Amargosa.
O Brasil tem terremoto
“No senso comum, costuma-se dizer que o Brasil não tem terremoto, mas tem sim. O que o Brasil não tem, ou ainda não teve, são terremotos de grande magnitude, como ocorre com frequência no Chile ou no Japão. Um desse de 4.6 ocorre umas 20 vezes por semana no Chile”, afirma o geofísico Sérgio Fontes, coordenador da RSBR.
Ele explica que o Brasil está localizado sobre uma “área estável”, diferentemente de países que estão bem nas bordas das placas tectônicas, onde a movimentação é mais frequente – e a consequente liberação de energia mais forte, gerando terremotos com mais poder destrutivo.
Isso não quer dizer, no entanto, que está tudo quieto sob os nossos pés. “Estamos no meio da placa, na superfície não se vê nada, mas esses pedaços se movimentam e acumulam tensão. Uma hora essa tensão precisa ser liberada e é daí que vem o tremor”, comenta Fontes.
Seu raciocínio é corroborado pela pesquisadora Simone Cruz. Ela aponta que a Bacia do Recôncavo é formada por rochas muito antigas, cristalinas, formadas quando o Brasil se separou da África, a cerca de 120 milhões de anos. Há, no entanto, fraturas que são tensionadas por outras estruturas geológicas, como a Cordilheira dos Andes, de um lado, e a Dorsal Atlântica, do outro.
“Não dá nem pra afirmar que não existe risco de um terremoto mais forte. Estamos numa área mais estável, mas seria equivocado dizer que nunca teremos um abalo tão intenso quanto vemos em outros locais”, alerta Cruz.
Sérgio Fontes completa: “Se houver um abalo mais forte aqui, o estrago será bem grande, porque nossas cidades, nossas edificações, não estão preparadas pra este tipo de fenômeno”.
Rede de informações
A Rede Sismográfica Brasileira, hoje coordenada por Fontes, reúne e analisa dados produzidos por 92 estações instaladas por todo o país, registrando tudo que ocorre embaixo da superfície terrestre.
Esta rede começou a ser criada no final da década de 2000 e alcançou a estrutura atual em 2015, após anos de investimento público. Com os dados produzidos pela rede, os estudiosos conseguem fazer análises mais precisas da situação sismológica brasileira sem depender de informações internacionais, o que ajuda em diagnósticos e eventuais ações preventivas.
Hoje, as instituições que integram a RSBR são a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Universidade de São Paulo (USP), Universidade de Brasília (UnB) e o Observatório Nacional, vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia.
“Antes dessa estrutura de estações, ficávamos no escuro. Hoje a gente produz informações científicas inestimáveis e não podemos retroceder”, afirma Fontes, lamentando os sucessivos cortes de recursos que vêm atingindo a entidade.
Simone Cruz também chama atenção para a importância do investimento na produção de dados. “Somente com acompanhamento sistemático a gente vai conseguir chegar ao ponto de indicar, por exemplo, que uma área está sob risco e precisa ser evacuada antecipadamente”.
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Ela enfatiza ainda que os órgãos de Defesa Civil estaduais e municipais precisam ter capacitação para criar protocolos e orientar a população.
A falta de informação, diga-se, que foi o que ampliou o temor da professora Naira Marambaia, que se mudou para Amargosa com a família há apenas 15 dias e não conhecia o histórico sismológico da cidade.
No domingo, ela foi despertada por um forte barulho e chegou a achar que a casa ao fundo da sua estava desmoronando. Desesperada, foi para a rua junto com o marido e o filho e encontrou toda a vizinhança em situação semelhante. “Foi a pior sensação da minha vida. Eu nunca imaginei passar por uma coisa dessa”, conta.
O médico Vinicius Tapioca, por sua vez, já estava calejado, mas mesmo assim ficou assustado. “Eu moro aqui em Amargosa e já tinha sentido esse tremor outras vezes, mas esse de domingo foi muito forte. Sacudiu muito, um movimento lateral. Felizmente a minha casa não teve nada, mas muita gente teve prejuízo com esse terremoto.”
De acordo com a Prefeitura de Amargosa, foi realizada uma vistoria nos imóveis atingidos e, até a manhã desta quarta-feira (02/09), uma residência havia sido condenada. A família foi removida e receberá uma assistência de aluguel social até que a prefeitura levante recursos para reparo ou reconstrução do imóvel.
A casa de Naira não sofreu danos, mas o susto foi tanto que, mais relaxada, ela chegou a repensar a mudança recém-concretizada: “Eu brinquei com meu marido que queria voltar pra Salvador. Não quero acordar com tudo tremendo de novo não”.
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