Destaque Entrevista

Alexandre Garcia relembra histórias de Brasília

Com mais de 50 anos de carreira, o jornalista é um dos embaixadores do turismo brasileiro

Alexandre Eggers Garcia, 78 anos, é um dos principais jornalistas do país. Nascido em Cachoeira do Sul, Rio Grande do Sul, ele atuou nos principais jornais do país. Recentemente saiu da Rede Globo e passou a trabalhar de forma independente, escrevendo para vários veículos e participando de mais de 311 programas de rádio. 

Em um bate-papo com o Grupo Voz de Brasília, Alexandre Garcia falou sobre sua trajetória profissional e contou histórias marcantes sobre Brasília.

Voz de Brasília – Essa semana se comemora o aniversário do Memorial JK e Juscelino faria 117 anos neste mês de setembro. Conhece alguma história marcante sobre esses momentos?  

Alexandre Garcia – Dia 12 de setembro JK faria 117 anos, eu acho que ele foi, talvez, o maior estrategista. Na prática ele foi um tático, ele pós em prática uma estratégia de 1891, quando foi promulgada a primeira constituição da república, em que ficou estabelecido que a União reservaria 14.400 km² no interior do país para futura capital. Juscelino desafiado por um eleitor, lá em Jataí, disse que sim, que iria construir Brasília, tal qual como determinava a constituição. Ele construiu Brasília em apenas três anos. Eu desafio que se encontre outro presidente, cujo aniversário é lembrado todos os anos. Lembrado porque ele fez uma mudança estratégica no Brasil. O país era um caranguejo preso ao litoral, havia claro o trabalho dos bandeirantes em São Paulo. Duas capitais planejadas: Belo Horizonte e Goiânia. Traziam o país para o interior. Veio na pata do boi, veio no ouro, no café, mas esse foi o maior movimento. O Brasil que é um continente, só foi realmente conquistado a partir da construção de Brasília. Com a grande rodovia Belém Brasília e as outras que se seguiram, no sentido leste e oeste. Hoje nós temos a maior produção de alimentos exatamente no Centro-Oeste e não havia na época, era um cerradão. Graças a Brasília o Brasil se expandiu, os brasileiros ocuparam o seu território e hoje a produção do Centro-Oeste garante a nossa balança comercial. 

 

Voz de Brasília – Você faz parte da história do Memorial JK. Como aconteceu seu envolvimento na construção do Memorial? 

Alexandre Garcia – Eu fui muito amigo do Sílvio Caldas, grande cantor brasileiro. Ele ficava hospedado na minha casa e anoite pegava o violão e a gente ia gravando as conversas. Em uma dessas conversas ele me disse que a Dona Sarah Kubitschek chora muito porque ela gostaria de construir um memorial para o Juscelino, uma coisa bem discreta, pequena, fora de Brasília, mas próxima, porém ela acha que o governo militar não deixaria. Ele achava que se eu conseguisse um encontro para ele com o presidente Figueiredo, ele iria expor essa ideia. Eu era subsecretário de imprensa do Palácio do Planalto, no dia seguinte perguntei ao ministro Golbery, ele foi falar com o presidente, voltou e disse que podia chamar o Sílvio porque o presidente estava aberto a conversar sobre esse assunto. Sílvio conversou com o presidente e ouviu que Dona Sarah poderia ir conversar com ele sobre o memorial, porque estava na hora da revolução corrigir um erro com relação a Juscelino. 

Voz de Brasília – Precisou acontecer um encontro da Dona Sarah Kubitschek com o então presidente Figueiredo para desenrolar a construção do Memorial JK. Como foi esse encontro? 

Alexandre Garcia – Dona Sarah quando entrou no gabinete do presidente, já a esperavam, o presidente e o governador de Brasília, Aimé Lamaison, e sobre a mesa estava um mapa de Brasília. Dona Sarah foi surpreendida porque Lamaison já tinha reservado um local para o Memorial. O melhor espaço de Brasília. Que é lá no alto onde está o memorial hoje. Ela começou a chorar e se abraçou ao Figueiredo e no Lamaison e a partir dali começou a funcionar os planos do Memorial JK, com ajuda de alguns empresários, Adolpho Bloch, entre eles. Eu fui trabalhar na Manchete e acompanhei isso enquanto estava lá. A família Kubitschek se organizou para começar as doações para construir o memorial. Era com dinheiro de doadores. A solenidade aconteceu em Diamantina, com seresta. Na mesma escadaria onde Juscelino fazia seresta. Reuniu-se toda família, todos os amigos de Juscelino. Eu tenho foto disso, foi uma noite memorável. A partir daí o Memorial virou realidade. É um dos grandes monumentos de Brasília e abriga o corpo de Juscelino. 

 

Voz de Brasília – Nos seus mais de 50 anos de carreira no jornalismo, o senhor já entrevistou grandes personalidades. Chegou a entrevistar JK alguma vez? 

Alexandre Garcia – Sim. Quando ele era presidente do Banco Denasa e eu era repórter econômico do Jornal do Brasil, eu o entrevistei. Nós falamos sobre assuntos econômicos, mas foi um grande momento que eu perdi de pegar um autógrafo dele. Foi uma conversa muito simpática, ele era uma simpatia. 

 

Voz de Brasília – O senhor ficou muitos anos na Rede Globo. Como está sua vida depois que saiu da emissora? 

Alexandre Garcia – A gente sempre é feliz quando é dono de si próprio. Eu estou trabalhando por mim, sob minha responsabilidade, e sempre o que eu faço é quando eu gosto de fazer. Eu acho que todo mundo tem que trabalhar naquilo que gosta, porque senão vai ficar com distonia neurovegetativa, que era o nome que se dava lá atrás. Eu fico muito feliz quanto a isso. 

 

Voz de Brasília – O senhor recebeu recentemente o título de Embaixador do Turismo Brasileiro. Qual sua responsabilidade com esse título? 

Alexandre Garcia – Esse título é dado pela Embratur para uma série de pessoas que tem significado nas suas diversas áreas de trabalho. Eu fui honrado com isso, e eu acho que Brasília poderia e deveria aproveitar mais o turismo histórico. Brasília tem muita história pra contar. Está fazendo 60 anos, mas na verdade tem mais que isso, a idade de Brasília foi quando começou a construção, o primeiro traçado, aquela cruz. Tem muita coisa para contar. Poderia contar a história de Juscelino a partir do Catetinho, e grupos teatrais encenar os discursos de JK, conversas com Dona Sarah, o pessoal cantando Peixe Vivo. A Praça dos Três Poderes viu muita coisa, viu a renúncia de um presidente, no caso de Jânio Quadros, viu a própria passagem da faixa de Juscelino para o Jânio. Viu a revolução de 64, as tropas por ali, os presidentes militares, a chegada de Tancredo e Sarney, o impeachment de Collor e de Dilma, o real, o governo interino de Itamar Franco, o governo Lula e Dilma, o Temer. Tem muita história para ser contada, para os jovens e crianças brasileiras. Histórias que podem ser encenadas por artistas, misturando arte com relatos. Eu acho que Brasília tem muito a mostrar além da arquitetura que já se modernizou. 

 

Voz de Brasília – O senhor conheceu nossa proposta cultural para o Almanaque Brasília 60 anos. Qual sua opinião sobre projeto? 

Alexandre Garcia – A obra do Almanaque dos 50 anos está excelente, nas fotografias, na pauta, nos temas que aborda. Faço votos de que outra obra sobre os 60 anos, com todas as promoções, envolvendo as pessoas em concursos de redação e de fotos, aconteça com êxito e a gente chegue em 2020 para festejar os 60 anos de Brasília

 

 

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