
Em Ceilândia, Lula ataca Ibaneis e o clã Bolsonaro, cobra voto casado no Senado e…
A Praça do Trabalhador, em Ceilândia, recebeu na noite de quarta-feira (16) o comício "O Brasil Pronto Pra Mais", com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O ato reuniu milhares de pessoas e deu o tom da estratégia da Federação no Distrito Federal na reta final da campanha.
O discurso teve três eixos. O primeiro foi a crise do Banco de Brasília. Lula responsabilizou o ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) pela exposição do BRB às operações com o banco do empresário Daniel Vorcaro e descartou socorro financeiro direto ao banco, rebatendo diretamente a governadora Celina Leão (PP), que acusa a União de recuar de um acordo discutido no Supremo.
O segundo eixo foi o ataque ao campo adversário. O presidente afirmou que o senador Flávio Bolsonaro e o deputado Eduardo Bolsonaro atuariam por medidas externas contra o Brasil, associando a família a uma agenda de pressão internacional. Foi a passagem mais dura da noite e a que mais mobilizou o público presente.
O terceiro eixo foi aritmético. Lula pediu o chamado voto casado para o Senado no Distrito Federal, defendendo que o eleitor use as duas vagas em Erika Kokay e Leila do Vôlei. "É burrice não utilizar os dois votos que nós temos", disse. O recado é interno: evitar a dispersão que, em eleições anteriores, tirou da esquerda cadeiras que estavam ao alcance. Ao lado disso, reforçou o apoio a Leandro Grass no governo do DF.
Também houve espaço para a agenda de enfrentamento à violência contra as mulheres e para a defesa da soberania popular nas urnas, tema que o presidente tem repetido em todos os palanques desde o início da campanha.
A escolha de Ceilândia não foi casual. É a maior região administrativa do Distrito Federal, um colégio eleitoral decisivo e um território onde a disputa entre os dois campos se resolve, historicamente, no voto de quem depende de transporte, saúde pública e emprego formal.

ANÁLISE DE PAULO FAYAD
Comício em Ceilândia não é detalhe de agenda: é declaração de rota. Quem quer vencer no Distrito Federal precisa ganhar nas cidades, não no Plano Piloto. Lula sabe disso há quarenta anos.
O que ele fez na Praça do Trabalhador foi transformar a crise do BRB em arma eleitoral. Ao dizer que não haverá socorro direto e ao apontar o ex-governador como responsável, o presidente joga sobre o campo adversário o custo de um banco que é querido pelo brasiliense. É uma jogada eficiente — e arriscada. Eficiente porque tira do Planalto a conta. Arriscada porque, se o BRB piorar, o eleitor não vai lembrar de quem começou; vai lembrar de quem estava no poder quando doeu.
O pedido de voto casado revela a real preocupação da Federação: o Senado. São duas vagas e um histórico de fragmentação que já custou caro à esquerda no DF. Ao dizer em público que dividir é burrice, Lula assume que a disputa está apertada e escolhe disciplinar a base antes que ela se disperse sozinha.
Sobre o ataque ao clã Bolsonaro, faço uma ressalva de ofício. Acusação de articulação contra o próprio país é gravíssima e não pode viver apenas de palanque. Se há elementos, eles precisam estar em documento, em processo, em apuração pública. Se não há, é retórica de campanha — e retórica de campanha desgasta quem usa quando a urna esfria.
O que faltou no discurso? Brasília. Faltou dizer o que o governo federal vai fazer pelo servidor público do DF, pelo transporte das cidades, pela fila da saúde. Comício que só fala do adversário deixa o eleitor com a pergunta mais difícil sem resposta: e a minha vida, melhora como?
Este portal seguirá cobrando proposta, dos dois lados. Palanque é legítimo. Projeto é obrigatório.
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