Brasília, quinta-feira, 22 de outubro de 2026
Águas Claras: advogada "da toalha" ateou fogo em sofá do próprio imóvel

Águas Claras: advogada "da toalha" ateou fogo em sofá do próprio imóvel

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Paulo Fayad
Redator
22 de outubro de 2026
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Advogada de 42 anos alega ser casada com Elon Musk e já responde por injúria racial e tentativa de invasão em condomínio em Águas Claras

Gravadas com a câmera trêmula de um celular por uma das vítimas, as imagens do interior do apartamento onde vive a advogada, de 42 anos, envolvida em uma avalanche de confusões, revelam o cenário exato de uma tragédia anunciada. Uma névoa densa e cinzenta de fumaça preenchia todos os cômodos do imóvel no 10º andar, enquanto o pânico de moradores ressoava nos corredores, espalhando o terror entre as famílias do residencial localizado em Águas Claras.

No chão da sala, o reflexo do caos: dezenas de latas de cerveja e garrafas de bebidas alcoólicas espalhadas em meio à bagunça generalizada, ao lado de um sofá parcialmente consumido pelas chamas. A fagulha inicial, segundo informações dos moradores, teria sido provocada por um cigarro aceso deixado sobre o estofado.

O princípio de incêndio, contudo, é apenas o capítulo mais recente do tormento vivido pelos moradores do Edifício Uptown Residence, em Águas Claras. Na manhã de terça-feira (20/10), às 8h52, a mesma moradora voltou a aterrorizar o andar. Enrolada apenas em uma toalha de banho, a mulher desferiu uma sequência de chutes violentos contra a porta de uma vizinha de 30 anos. A força dos impactos foi tamanha que a estrutura de madeira quase cedeu.

“Precisei segurar a porta com todo o meu peso para impedir que ela caísse sobre mim. Antes de mim, outra moradora já foi atacada com uma barra de ferro na porta, porque ela implica com este apartamento, que fica bem em frente ao dela”, relatou a vítima, que se mudou para o local há cerca de seis meses.

A fixação da advogada pelos vizinhos de porta esconde um delírio inusitado. Segundo os relatórios dos condôminos, a mulher — que é divorciada — afirma ser casada com o bilionário norte-americano Elon Musk e exige que o corredor permaneça desocupado para o casal. Em gravações de vídeo enviadas à reportagem, é possível ouvir a mulher gritando o nome do empresário de dentro de sua unidade.

Com gritos diários, episódios em que fala sozinha e surtos agressivos, as chamadas à Polícia Militar (PMDF) e ao Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) tornaram-se corriqueiras no endereço. No entanto, os moradores relatam que o desfecho é sempre o mesmo: impunidade.

Metrópoles DF
Foto: Metrópoles DF

“Ela costuma dar ‘carteirada’, afirmando a todo instante que é advogada e demonstrando a certeza absoluta de que não sofrerá consequências jurídicas ou policiais”, lamenta uma das residentes.

As investidas da moradora ultrapassaram a esfera do barulho e descambaram para crimes graves. Em maio deste ano, uma moradora do mesmo prédio registrou um Boletim de Ocorrência por injúria racial na 21ª Delegacia de Polícia (Águas Claras). Em um vídeo anexado ao inquérito, a advogada aparece direcionando termos racistas à vizinha, chamando-a explicitamente de “preta suja”.

“Ela já me ameaçou de morte duas vezes: uma quando eu estava saindo de casa e outra quando passei por ela na rua. Em outra ocasião, tentou me agredir fisicamente, o que só não aconteceu porque meu irmão e minha mãe estavam presentes” depondo a vítima.

Diante do esgotamento das vias administrativas — em que multas e notificações formais não surtiram qualquer efeito —, a administração do Edifício Uptown Residence ingressou com uma ação judicial pedindo o afastamento definitivo da advogada do imóvel. O condomínio argumentou que a permanência da moradora coloca em risco iminente a vida, a integridade física e a saúde mental dos demais condôminos, utilizando como prova os Boletins de Ocorrência, vídeos do incêndio e depoimentos.

Em decisão proferida em junho de 2026, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) indeferiu a tutela de urgência (pedido de liminar para remoção imediata). O relator do processo, desembargador Roberto Freitas Filho, argumentou que o direito de propriedade e a privação do lar são medidas excepcionais no ordenamento jurídico brasileiro.

Segundo a decisão, embora os documentos comprovem a existência de um conflito severo no edifício, faz-se necessária a instrução probatória completa para avaliar a gravidade continuada dos fatos e assegurar o contraditório e a ampla defesa da ré. O processo principal segue em trâmite na Justiça do DF, aguardando julgamento definitivo.

O síndico do empreendimento manifestou indignação com o tempo de resposta do Judiciário diante da gravidade dos episódios. “Tem um ponto que ninguém entende: por que, com tantas ocorrências policiais acumuladas, registros de injúria racial, risco de incêndio e uma ação de despejo fundamentada, a Justiça não anda com as providências?”, questionou o gestor.

Procurada formalmente pela reportagem para comentar as denúncias, os relatórios policiais e o andamento da ação de afastamento residencial, a defesa da advogada não havia emitido resposta até a última atualização desta reportagem. O espaço segue aberto para possíveis manifestações.