Mensagens deixam claro que objetivo de Eduardo e Jair é tão somente escapar da Justiça
São estarrecedoras as revelações do relatório da Polícia Federal (PF) que dão sustentação a mais um indiciamento de Jair Bolsonaro e seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP). O documento expõe ações recentes de ambos para retaliar autoridades brasileiras responsáveis pelo julgamento da trama golpista marcado para setembro. Na forma e no conteúdo, as mensagens trocadas por pai e filho constituem um escândalo.
Em recados enviados na noite de 7 de julho, Eduardo deixa claro que sua única intenção é evitar a prisão do pai. Tudo gira em torno — e em benefício — da família Bolsonaro, a ponto de ele descrever como erro a anistia aos condenados por participar dos ataques violentos do 8 de Janeiro. “Se a anistia light passar, a última ajuda vinda dos EUA terá sido o post do Trump”, escreve. “Temos que decidir entre ajudar o Brasil, brecar o STF e resgatar a democracia OU enviar o pessoal que esteve no protesto que evoluiu para uma baderna para casa num semiaberto.”
Entre as provas contra Bolsonaro, a PF ressalta que ele movimentou R$ 30,6 milhões em 12 meses e destaca as transferências financeiras para Eduardo permanecer nos Estados Unidos, onde tem defendido, de forma reiterada, sanções contra ministros do STF e outros agentes públicos. Cita também mensagens do ex-presidente a um advogado que representa a Trump Media & Technology Group em processo contra o ministro do STF Alexandre de Moraes na Justiça americana.
É nítida a tentativa de usar os contatos no governo americano — com ou sem anuência deles — apenas em benefício próprio, e não das causas de liberdade e justiça que ambos propalam defender. No celular de Bolsonaro, a PF encontrou outra prova de que o interesse dele é apenas ficar livre: uma carta, editada ainda em 2024, com pedido de asilo político ao presidente argentino Javier Milei. Não há evidência mais clara de que ele pensava em fugir.
- Carta a Milei e ‘anistia light’: PF indicia Bolsonaro e Eduardo por tentativa de atrapalhar ação do golpe no STF
Bolsonaro pede ainda orientação para comentar o tarifaço de Trump contra o Brasil. Na sede do PL, os policiais acharam documento com título em inglês e perguntas sobre o que ele faria se voltasse ao poder. Na interpretação da PF, era uma “entrevista levada a efeito por profissional jurídico no interesse de grupo/organização estrangeira, com finalidade de coleta de dados e informações estratégicas sobre temas relacionados à soberania nacional”.
É espantoso que mensagens entre pais e filhos, ainda que escritas com intimidade para consumo doméstico, descambem para o nível de baixaria exposto no relatório da PF. É simplesmente constrangedora a troca de xingamentos entre os Bolsonaros. Na superfície, parece só grosseria. Na essência, o único objetivo é defender os interesses da família Bolsonaro, seja lá quais forem as consequências nefastas para os brasileiros afetados pelo tarifaço ou para as instituições atacadas por sanções americanas.
Para além do linguajar chulo, incompatível com lideranças políticas desse nível, fica evidente a articulação de Eduardo com autoridades americanas contra o interesse nacional e a preparação de um plano de fuga de Bolsonaro. No processo contra ele, acumulam-se evidências graves de tentativa de obstrução da Justiça. No caso de Eduardo, a Câmara nem precisa esperar a Procuradoria-Geral da República decidir se oferecerá denúncia com base no relatório. Já há vasto conjunto de provas para julgá-lo por quebra de decoro.





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