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Vocação automobilística de Brasília antecede o autódromo

Primeira menção a uma corrida no Distrito Federal data de 1958; dois anos depois, a cidade assistiu à primeira largada e, apenas 14 anos mais tarde, seria inaugurada a pista que o GDF reabrirá após mais de uma década fechada

A história do automobilismo em Brasília começou muito antes de a cidade ter, de fato, um autódromo. Essa relação surgiu durante o planejamento da nova capital — seja pelo plano de desenvolvimento de Juscelino Kubitschek, que estimulava a entrada da indústria automobilística no Brasil, seja pelo traçado viário e arquitetônico de Brasília, ou até mesmo pelo entusiasmo dos pioneiros por carros e velocidade.

A primeira menção a uma corrida na cidade é de 1958, dois anos antes da inauguração. Segundo o historiador Elias Manoel da Silva, do Arquivo Público do Distrito Federal (ArpDF), a ideia foi levada até JK por Joaquim Tavares, então diretor do Departamento de Terras e Agricultura da Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap).

“A primeira vez que se ventila a ideia de uma corrida em Brasília é durante a construção”, conta o historiador. “Em 1958, Joaquim Tavares criou uma estrada de cerca de 120 km — a chamada Avenida do Contorno, hoje Estrada Parque do Contorno (EPCT) —, uma faixa sanitária onde ficam os córregos que alimentam o Paranoá. Ele achou tão incrível a faixa larga, sem curvas e ovalada, que foi falar com JK sobre fazer uma corrida nessa estrada”, completa Elias.

Apesar da aprovação de Juscelino, a corrida não ocorreu devido à negativa do presidente da Novacap à época, Israel Pinheiro. Mas a ideia provavelmente não saiu mais da cabeça de JK. Entusiasta do automobilismo — ele organizou corridas na Pampulha quando era prefeito de Belo Horizonte —, o presidente incluiu o esporte na programação oficial da inauguração da nova capital, com o Grande Prêmio Juscelino Kubitschek, que encerrou as comemorações em 23 de abril de 1960.

O trajeto foi escolhido pelo próprio presidente, que chegou a rascunhar o traçado em um envelope que estava no bolso. “É uma cena de filme. Ele tira o envelope, pega uma caneta e fala: ‘Pronto, já sei qual vai ser o trajeto’. Ele desenha um croqui com o triângulo — símbolo da Praça dos Três Poderes — e os dois eixos que conhecemos. O percurso passava pela Praça dos Três Poderes e pelo Eixão Sul, com largada e chegada na Rodoviária do Plano Piloto”, explica o historiador Victor Hugo Tambeline, também do ArpDF.

No terceiro dia de celebrações da nova capital, 55 pilotos e 47 veículos participaram de três provas com quatro voltas, saindo da Rodoviária do Plano Piloto em direção ao Eixão Sul e retornando ao ponto inicial. O vencedor foi o paulista Jean L. Lacerda, pilotando uma Ferrari, que recebeu o troféu das mãos do argentino Juan Manuel Fangio, pentacampeão mundial de Fórmula 1 convidado para a inauguração da cidade.

A partir daí, Brasília passou a ser cenário de corridas de rua, favorecidas pelas avenidas largas idealizadas por Lucio Costa e Oscar Niemeyer, como os 500 km e os 1.000 km de Brasília, que figuraram entre as principais provas de automobilismo do fim dos anos 1960.

“Brasília, desde o início, já era uma pista de corrida. Era uma cidade convidativa para correr. Naquela época, ainda não havia sinal nem cruzamento; você andava a toda velocidade. Nesse conceito, foram criadas as corridas de rua, sempre em torno da Rodoviária e da W3. Brasília ficou conhecida no Brasil e no mundo como a cidade do automobilismo, da velocidade”, lembra o ex-piloto e jornalista João Luiz da Fonseca.

Contexto histórico

Essa vocação natural se uniu a fatores políticos, econômicos e ao efeito Fittipaldi — a ascensão de Emerson Fittipaldi, primeiro piloto brasileiro a vencer uma corrida de Fórmula 1 —, impulsionando a construção de uma casa definitiva para o automobilismo: o Autódromo Internacional de Brasília.

Inaugurado em 3 de fevereiro de 1974, o espaço começou a ser construído em 1972, durante o governo do presidente Emílio Garrastazu Médici e do então governador Hélio Prates.

“Na década de 1970, o Brasil vivia um boom econômico. Era conveniente construir um autódromo, pois traria visibilidade internacional. Essa foi uma das primeiras motivações”, explica Elias Manoel da Silva.

A ascensão de Emerson Fittipaldi — que viria a se tornar campeão mundial em 1972 — fortaleceu ainda mais o projeto. “O país tinha um herói nacional, símbolo de vitória e orgulho. O autódromo se tornou um marco da nossa inserção no cenário esportivo global”, acrescenta o historiador.

Coincidentemente, Fittipaldi venceu a corrida inaugural do autódromo, uma disputa extra que não contava pontos para o campeonato mundial, consolidando sua trajetória rumo ao bicampeonato naquele ano. Entre os boxes, um jovem Nelson Piquet, ainda mecânico, acompanhava a prova — anos depois, seria ele o tricampeão mundial de F1 que daria nome ao circuito.

“Foram 14 anos até a consolidação do autódromo. Infelizmente, JK não chegou a ver esse sonho realizado, mas o legado dele se cumpriu. Brasília viveu o auge do automobilismo brasileiro com Fittipaldi, Piquet e, pouco depois, Ayrton Senna”, analisa Tambeline.

Detalhes da construção

O complexo automobilístico de Brasília começou a ganhar forma no fim da década de 1970, quando o Departamento de Estradas de Rodagem (DER-DF), presidido por Cláudio Starling, iniciou as obras. O projeto do engenheiro Samuel Dias resultou de uma pesquisa feita durante o Grande Prêmio da Argentina de F1, buscando as melhores práticas internacionais.

Com 5.384 metros de extensão, o traçado foi concebido para ser veloz e desafiador — padrão que permanece até hoje. Após quase cinco décadas, o circuito passou por sua primeira grande modernização, com investimento de R$ 60 milhões do Governo do Distrito Federal (GDF).

A reabertura oficial, marcada para 30 de novembro de 2025, tem caráter simbólico: assim como em 1974, o retorno das atividades ocorre poucos dias após o Grande Prêmio de Interlagos. Desta vez, será a Stock Car que acelerará na capital, na penúltima etapa da temporada nacional.

“Acima de tudo, isso revela o compromisso do GDF em resgatar espaços históricos. O autódromo ficou fechado por 11 anos e agora volta a ser um importante local de entretenimento e memória para a população”, destaca o superintendente do Arquivo Público do DF, Adalberto Scigliano.

“Resgatar esse espaço é devolver à nova geração a oportunidade de conhecer e viver a importância do automobilismo brasiliense”, conclui.