Em 2025, até setembro, foram 12.237 notificações à Secretaria de Saúde. Especialistas dão dicas para evitar novos casos e buscar direitos
Provavelmente, você não sabe o significado da sigla DART. No entanto, é quase certo que já sofreu ou conhece alguém que tenha sofrido um acidente de trabalho ou desenvolvido síndrome de burnout por causa do ambiente profissional. No Distrito Federal, isso é mais comum do que se imagina.
Somente até o fim de setembro, 12.237 registros de doenças e agravos relacionados ao trabalho (DARTs) foram notificados à Secretaria de Saúde do DF (SES-DF) — uma média diária de 45 casos. A maioria está relacionada a acidentes de trabalho (9.508).
Além disso, outras doenças e agravos são frequentes, de acordo com a psicóloga e especialista em saúde mental no trabalho Denise Milk.
“Destacam-se as LER/DORT (lesões por esforço repetitivo e distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho), o estresse ocupacional, a síndrome de burnout, os transtornos de ansiedade e as depressões reativas ao ambiente laboral”, comentou.
Segundo a especialista, geralmente, as DARTs surgem de forma gradual e silenciosa.
“Podem ser fruto da exposição contínua a condições adversas, como sobrecarga de trabalho, falta de pausas, posturas inadequadas, metas inalcançáveis, ausência de reconhecimento e relações interpessoais desgastantes”, avaliou.
“Com o tempo, o corpo e a mente sinalizam o excesso — primeiro com pequenas dores, cansaço e irritabilidade — até evoluir para quadros clínicos mais sérios”, alertou Denise.
Trabalho exaustivo
Foi o que aconteceu com uma trabalhadora do DF, de 33 anos, que preferiu não se identificar por medo de represálias. Ela contou que foi diagnosticada com síndrome de burnout após um período intenso de cobranças e excesso de tarefas no trabalho.
“Comecei a perceber que algo estava errado quando, mesmo descansando, eu não conseguia relaxar. Tinha crises de ansiedade antes de ir trabalhar, insônia e uma sensação constante de exaustão”, relatou.
“Foi aí que percebi que o problema estava diretamente ligado à rotina profissional. Comecei também a desenvolver depressão, a me cobrar absurdamente”, acrescentou.
Ela contou que, inicialmente, foi difícil se afastar do trabalho.
“Me sentia culpada por ter me afastado. Mas, com o tempo e com acompanhamento médico e psicológico, entendi que precisava desse período para me recuperar”, disse.
Durante o afastamento, o suporte da empresa foi limitado.
“Era basicamente o contato com o RH para resolver a parte burocrática”, lamentou.
“Na volta, senti falta de um acompanhamento real, tanto da liderança quanto de ações voltadas à saúde mental. Foi um retorno complicado. Só fui melhorar depois que troquei de emprego”, afirmou.
Após a experiência, ela passou a reavaliar suas prioridades.
“Hoje tento impor limites, cuidar mais de mim e manter um equilíbrio maior entre vida pessoal e profissional. Ainda é um desafio, mas aprendi a reconhecer os sinais de sobrecarga”, ressaltou.
Espaços seguros
Mestre em Desenvolvimento Humano pela Universidade de Brasília (UnB), a psicóloga Thirza Reis afirmou que o tratamento das DARTs precisa ser integral, envolvendo corpo, mente e contexto.
“Na prática, envolve psicoterapia, acompanhamento médico e, às vezes, fisioterapia ou medicação. Mas o principal é entender que não adianta tratar o indivíduo e manter o ambiente que o adoeceu”, alertou.
Segundo ela, o empregador tem papel essencial.
“Prevenir DARTs não é oferecer café especial ou um dia de palestra sobre bem-estar. É rever a forma como o trabalho acontece”, avaliou.
“Empresas corajosas criam espaços seguros onde as pessoas possam dizer ‘não estou bem’ sem medo. Elas formam líderes com inteligência relacional, capazes de escutar e agir com empatia. E entendem que limite é cuidado, não preguiça”, destacou.
Direitos trabalhistas
Além da recuperação da saúde, quem desenvolve uma doença ou agravo relacionado ao trabalho também possui direitos assegurados.
A advogada especializada em direito do trabalho Rita Cássia Biondo explicou que, quando o trabalhador adquire uma doença ocupacional — seja profissional (decorrente da atividade em si) ou do trabalho (decorrente das condições em que o serviço é prestado) — a lei equipara essa situação a um acidente de trabalho.
Após o afastamento, o trabalhador tem diversos direitos assegurados, tanto de natureza previdenciária quanto trabalhista. Segundo a advogada, alguns deles são:
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Auxílio-doença acidentário, pago pelo INSS após os 15 primeiros dias de afastamento pagos pelo empregador;
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Depósito do FGTS durante todo o período de afastamento;
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Reintegração ou indenização substitutiva, caso seja dispensado durante o período de estabilidade;
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Direito à reabilitação profissional pelo INSS, se ficar impossibilitado de exercer sua função original;
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Indenizações por danos morais, materiais e estéticos, se houver culpa da empresa.
Para garantir esses direitos, é necessário comprovar o nexo causal entre a doença e a atividade laboral.
“É praticamente um passo a passo jurídico, começando por laudos e atestados médicos que relacionem a doença ao trabalho, solicitar e cobrar da empresa a emissão da Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT)”, explicou Rita.
Urgência na ação
Procurada pela reportagem, a Secretaria de Saúde informou que os dados de notificações de doenças e agravos relacionados ao trabalho dos anos de 2024 e 2025 apontam um crescimento expressivo no número de registros, “evidenciando a necessidade de maior atenção às políticas de prevenção e segurança no ambiente de trabalho”.
“Esses dados não apenas evidenciam a magnitude do problema, mas também reforçam a necessidade urgente de ação”, destacou a pasta.
A secretaria afirmou que as iniciativas alinhadas à Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora, com foco em ações educativas, fiscalização e promoção da saúde no ambiente de trabalho, foram intensificadas.
“Essas medidas visam proteger a saúde dos trabalhadores, prevenir riscos e garantir condições adequadas para o exercício de suas funções”, concluiu a nota.





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